Homilia no Dia Mundial da Paz

01-01-2017 11:00


Homilia de D. António
Carrilho, Bispo do Funchal,


na Solenidade de
Santa Maria Mãe de Deus - Dia Mundial da Paz  


Sé do Funchal, 1 de Janeiro de 2017


 


Com Maria,
"não" à violência e "sim" à paz!

Na oitava do Natal do Senhor, repletos da Luz que vem do presépio de
Belém, a Igreja apresenta-nos o mistério insondável da maternidade divina de
Maria. Ela é a toda pura, a cheia de graça, o grande sinal do céu, sob cuja
proteção iniciamos o novo Ano de 2017. Integrada nesta solenidade mariana, a
Igreja celebra também o Dia Mundial da Paz, instituído há 50 anos, uma feliz
iniciativa do Papa Paulo VI.  Por isso cantamos a Deus a nossa gratidão.

Toda a grandeza de Maria provém da sua maternidade divina. Os cristãos sempre
reconheceram esta especial prerrogativa e condição da Virgem Maria, mas foi no
séc. IV, no Concílio de Éfeso, que a Igreja proclamou como dogma de fé que
Maria é a Theotokos, ou seja, a Mãe de Deus. O grande bispo e doutor da
Igreja, Santo Agostinho, diz-nos que "tudo quanto pudermos dizer em louvor de
Maria Santíssima é pouco em relação ao que merece por sua dignidade de Mãe de
Deus".  Maria é a visibilidade da ternura do Pai. Neste mundo, marcado
pela violência, solidão e desamor, a Santa Mãe de Deus é  luminoso sinal de Esperança.

Grande bênção para a Humanidade

No excerto do Livro dos Números escutámos a fórmula da bênção sacerdotal
bíblica, através da qual Deus abençoa o Seu povo: "O Senhor volte para ti o
seu rosto e te dê a paz"
(Nm 6,26). Na bíblia, a bênção tem um significado
muito forte. Só Deus pode abençoar. É sinal da presença e da proteção de Deus,
que derrama sobre o seu povo os favores divinos. E a paz significa, também,
desenvolvimento e prosperidade.

 Maria, a Mulher fiel, obediente e
humilde, pelo seu "SIM" generoso e incondicional, transformou-se para nós numa
grande "Bênção" e fez acontecer a plenitude dos tempos, ao dar à luz o Filho de
Deus: "Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho,
nascido de uma mulher"
(Gal 4, 4).

 Em Maria, o Verbo de Deus fez-se
carne e habitou entre nós. Mistério sublime da misericórdia divina, que eleva o
homem e a mulher a uma altíssima dignidade, a de serem filhos muito amados de
Deus, habitados pelo Espírito Santo. "E porque sois filhos, Deus
enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá - ó Pai!",
como escutámos na carta
de S. Paulo aos Gálatas (4,6).

Contemplar e anunciar a Palavra

O texto do Evangelho de hoje está na continuação da liturgia
da noite de Natal. Na centralidade do mistério contemplamos o Menino, que é
reconhecido pelos pastores, pelos sinais de extrema pobreza: Jesus está envolto
em panos e "deitado na manjedoura". Maria, sua Mãe, em contemplação
silenciosa, procura interiorizar a profundidade do inefável mistério do amor
misericordioso de Deus.

Numa Igreja em saída, num autêntico dinamismo evangelizador,
que procura ir ao encontro de todos até as periferias existenciais e
geográficas, urge conciliar a contemplação do mistério de Deus com o anúncio da
Palavra. De contrário, o trabalho pastoral será incompleto. Os pastores
regressaram "glorificando e louvando a Deus" e "quanto a
Maria, guardava todos estes factos e meditava sobre eles em seu coração
(Lc
2, 19).

Ao oitavo dia, conforme a tradição israelita, o Menino foi
circuncidado e "deram-lhe o nome de Jesus". O nome que lhe foi atribuído
pelo Anjo, na Anunciação, está intimamente unido à sua pessoa:  indica a
sua missão e significa o seu destino. Quando Deus chama para uma determinada
missão atribui-lhe um nome novo. "Jesus" quer dizer "Deus salva". Jesus é o
nosso Salvador!

Na atitude
dos pastores, o Evangelho convida-nos a procurar o Menino-Deus e a
contemplá-l'O, mas diz-nos que os pastores voltaram para a cidade e anunciaram aquilo
que tinham visto. Também nós, como os pastores, não podemos ficar apenas no
encontro com o Menino-Deus, na gruta de Belém, mas deverá tornar-nos
anunciadores da alegria e da esperança, construtores da paz.

A urgente cultura da Paz

Como sabeis, hoje, celebramos o 50º Dia Mundial da Paz. O Papa Francisco, num mundo
dilacerado pela violência, particularmente pelas atrocidades da guerra e suas
consequências devastadoras, em algumas partes do mundo, quis assinalar a
celebração desta efeméride, na sua habitual Mensagem para este Dia, com o tema
"A não-violência: estilo de uma política para a paz".
 

O Santo Padre sublinha a nova situação de guerra do séc. XXI,
dizendo: "hoje, infelizmente, encontramo-nos a braços com uma terrível guerra
mundial aos pedaços", explicitando o "terrorismo, criminalidade e ataques
armados imprevisíveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de
tráfico humano; a devastação ambiental". O próprio Jesus partilhou a condição
dos pobres: foi um sem-abrigo em Belém e um refugiado na terra do Egipto (cf. Mensagem,2).

Na sua mensagem, o Santo Padre dirige-se,
em primeiro lugar, aos chefes de Estado e das Comunidades das Confissões
Religiosas e aos responsáveis da Comunicação Social, para que fomentem e criem
uma autêntica cultura da Paz. Deu particular relevo ao desenvolvimento de uma
ecologia integral, humana, religiosa e ambiental, que é o verdadeiro caminho
para a paz.

Na verdade, urge cultivar nas famílias a
não-violência, a mudança de mentalidade e de coração, numa abertura criativa ao
Espírito Santo, que é fonte de Paz e Alegria, na doação e ajuda aos que mais
precisam da nossa compreensão, reconciliação e misericórdia. E o Papa pede a Deus que ajude a
inspirar na "não-violência" os nossos sentimentos e valores, afirmando: "Desde o nível local e diário até ao nível da
ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo característico das
nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em
todas as suas formas. (...) Seja a caridade e a não-violência a guiar o
modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e
internacionais" (Mensagem,1).

 A violência não
é remédio para nada nem para o nosso mundo dilacerado. Jesus viveu num mundo
carregado de violência e "ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se
defrontam a violência e a paz, é o coração humano" (Mensagem, 3). Por isso, acolher o Evangelho é deixar Cristo afastar
do nosso coração todo o sentimento de ódio, de vingança, de violência e
deixar-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se instrumento de paz, de
reconciliação. Como exortava São Francisco de Assis: "A paz que anunciais com
os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações". Peçamos,
pois, a Deus que nos conceda o dom da paz: a paz nos nossos corações, paz nas
famílias e na sociedade, paz entre as nações.

E ao finalizar a sua Mensagem, o Papa
Francisco, sempre tão realista nos seus apelos, exorta-nos: "No ano de 2017,
comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram
dos seus corações, palavras e gestos de violência, e a construir comunidades
não-violentas, que cuidem da casa comum". Mas não podemos esquecer que a paz
começa no nosso coração!

A nossa prece

A Maria-Mãe, Senhora da Paz,
dirigimos agora a nossa prece: vinde, Senhora, ensinar-nos como viver a
verdadeira paz, a paz que nasce da verdade e da justiça, mas também dos
pequenos gestos de ternura, do silêncio e do diálogo, da compreensão e do
perdão. A Paz encontra na "fraternidade" o seu fundamento e o seu caminho!

Para todos os queridos diocesanos,
para os nossos emigrantes e visitantes, pedimos a proteção de Deus, a Sua
Bênção e a Sua Paz, recordando, em prece, a fórmula escutada na primeira
leitura: "O Senhor te abençoe e te
proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O
Senhor volte para ti os Seus olhos e te conceda a paz"
(Nm 6, 25-26).

Que o Senhor nos ilumine com a Luz do seu Rosto e nos dê a sua
Paz!

Santa Maria, Mãe de Deus e Rainha da Paz, rogai por nós.


Funchal, 1 de Janeiro de 2017


†António Carrilho, Bispo do Funchal


Voltar

Contactos

Diocese do Funchal
Largo Visconde Ribeiro Real, 49
FUNCHAL
9001-801

© 2015 Todos os direitos reservados.

Diocese do Funchal - Gabinete de Informação