Homilia no Dia Mundial da Paz - 1 janeiro 2016

02-01-2016 17:39

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

Solenidade da Santa Mãe de Deus

Dia Mundial da Paz – 1 de Janeiro de 2016

 

Com Maria, promover a paz e a misericórdia

 

Na oitava do Natal do Senhor, no primeiro dia do ano, a Igreja celebra desde 1968, por decisão do Papa Paulo VI, o Dia Mundial da Paz associado à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Que o novo ano de 2016, especialmente projetado para o Ano Santo da Misericórdia (“Sede misericordiosos como o Pai”), seja portador das maiores bênçãos e da verdadeira paz para nós e toda a família humana.

Neste ambiente natalício, mergulhados na Luz e na escuta do Verbo de Deus, celebramos, com grande alegria, a primeira festa mariana nascida no ocidente, no séc. VI. O Concílio de Éfeso havia declarado que a Virgem Maria é Mãe de Deus, Theotókos, porque o seu filho é o Filho de Deus. Com Maria, sintonizamos o canto de louvor à Santíssima Trindade, fonte de Vida e de unidade: “Os povos vos louvem ó Deus, todos os povos vos louvem”(Sl 66).

Cristo, nossa Luz e nossa Paz

A Paz que os anjos cantaram, na noite de Belém e que nos é anunciada na tríplice bênção do Livro dos Números, é um tema messiânico por excelência: “O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz” (Num 6,26). A bênção bíblica, que escutámos no Livro dos Números, tem a força e o poder de comunicar a vida, a graça e a paz de Deus àqueles que a recebem com fé. À Santíssima Trindade, Fonte de Luz e de Amor misericordioso, neste primeiro dia do ano, peçamos a bênção para todos nós, para a família humana e para toda a criação: “Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção”(Sl 66).

Na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho Unigénito, que é verdadeiramente a nossa Paz e uma bênção para todos nós, seus filhos. “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei”(Gal 4,4). De facto, a luz do rosto de Deus brilhou intensamente sobre nós, com a chegada do Príncipe da Paz, Deus Menino. N’Ele resplandece a paz e o esplendor da glória do Pai.

A palavra bíblica shalom, que significa paz, é também a expressão da salvação, de todos os bens que Cristo nos trouxe. A Paz é dom de Deus, mas, da nossa parte, é um compromisso. Que a nossa vida seja testemunho credível e transmissora de Luz e da Paz que Jesus veio trazer à terra.

Anunciar Jesus, com alegria e audácia

O Evangelista S. Lucas convida-nos a acompanhar os pastores até à gruta de Belém. Como eles ficaremos deslumbrados pela inaudita surpresa: “encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura”(Lc 2, 16). Deste encontro íntimo e pessoal com Deus Menino, que Se oferece a nós na pobreza do espaço e na fragilidade de uma criança, regressaremos transformados, glorificando e celebrando os louvores do Senhor. Seremos verdadeiros anunciadores do Evangelho da Alegria e da Paz.

Diz-nos, ainda, o evangelista que deram ao Menino o nome de Jesus “indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno”(Lc 2, 21). Na Bíblia, o nome tem uma grande importância e está ligado à missão que a pessoa vai desempenhar na vida. O nome do Filho de Deus foi revelado pelo Anjo Gabriel, quando anunciou o nascimento de Jesus a José. “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados”(Mt 1,21). Jesus significa: Deus salva. Ele é verdadeiramente o Filho do eterno Pai e o Salvador da humanidade.

O abraço da Paz e da Misericórdia

Neste Ano Santo Jubilar da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco com a Bula “O Rosto da Misericórdia” e inaugurado no passado dia 8 de Dezembro, em Roma, a Igreja convida-nos a olhar para a grandeza da Misericórdia de Cristo e acolher a ternura do Seu Coração. N’Ele encontraremos a gratuidade do amor e a oferta da Vida em abundância.

O Papa Francisco, sentindo a carência de misericórdia e de perdão, neste mundo ferido pelo pecado, recorda-nos a urgência da ternura de Deus, no testemunho de vida pessoal e comunitário. “A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia” (Bula, 25).

Na verdade, Cristo está presente no meio de nós e faz caminho connosco. Envolve-nos no seu abraço de paz e de misericórdia e deixa resplandecer sobre os seus filhos e filhas a Luz do seu Rosto misericordioso. Ele é “o rosto da misericórdia do Pai ” (Bula,1).

49º Dia Mundial da Paz

Preocupado com os graves flagelos que afligem a humanidade atual, como a globalização de novas formas de violência e escravidão provocados pelos conflitos mundiais e guerras ideológicas entre religiões e países, o Papa Francisco publicou a sua Mensagem para o 49º Dia Mundial da Paz, que ocorre hoje, dia 1 de Janeiro de 2016, com o tema “Vence a indiferença e conquista a paz”.

Nela, o Santo Padre faz um forte apelo ao diálogo e à maior consciência da dignidade humana, como caminho para a paz. Ele convida todos os homens e mulheres de boa vontade a serem para os seus irmãos e irmãs oprimidos verdadeiros artífices da globalização da solidariedade e da fraternidade, que possa devolver-lhes a esperança e a coragem para os caminhos da vida, apesar dos problemas do nosso tempo.

O Santo Padre, através da sua Mensagem, lançou novos apelos à promoção e cultura da paz. Ele incentiva a comunidade internacional, todos os homens e mulheres de boa vontade a aceitarem os desafios da cultura da solidariedade, da misericórdia e da compaixão.

A indiferença é um dos pecados mais graves do nosso tempo, porque leva a humanidade a centrar-se num egoísmo terrível e destruidor. O Papa Francisco, preocupado com a situação mundial, tantas vezes fechada e desinteressada dos problemas dos outros, afirma na sua Mensagem: “Nestes e noutros casos, a indiferença provoca sobretudo fechamento e desinteresse, acabando assim por contribuir para a falta de paz com Deus, com o próximo e com a criação” (Mensagem, 3)

A globalização da indiferença conduz à destruição global do mundo e da humanidade. Daí a grave responsabilidade dos povos de construir e testemunhar a paz. “Este comportamento de indiferença pode chegar inclusivamente a justificar algumas políticas económicas deploráveis, precursoras de injustiças, divisões e violências, que visam a consecução do bem-estar próprio ou o da nação” (Mensagem,4).

Apelo à responsabilidade de todos

É significativo o gesto do Papa Francisco enviando a sua Mensagem para este Dia Mundial da Paz aos Ministros dos Negócios Estrangeiros de todo o mundo; mas não são apenas os governantes das nações os únicos responsáveis pela paz e concórdia entre os povos: todos somos responsáveis e chamados a construir a paz, a começar pelas nossas famílias e outras instituições a que estamos ligados. “Que fizeste do teu irmão”? É esta, lembra o Papa, a pergunta do livro do Génesis que também nos desafia e compromete, perante aqueles que estão a nosso lado ou cujo sofrimento conhecemos (cf. Mensagem, 5).

Recordo aqui algumas passagens da Mensagem do Papa Francisco para este 49º Dia Mundial da Paz, cuja leitura integral muito recomendo. Querendo sintetizá-la, com a exigência de um compromisso pessoal e social, nós diremos: há que globalizar a fraternidade, “vence a indiferença e conquista a paz”.

A este propósito, apraz-me recordar, nos 50 anos do Concílio Vaticano II, as palavras autorizadas de um dos documentos conciliares mais emblemáticos, sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Esta Constituição Pastoral aponta-nos para Cristo, como a nossa Paz e o único Salvador da humanidade. “A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os homens” (Const. Gaudium et spes,78).

Peregrinar com Maria, Rainha da Paz

“Como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro da Paz”, diz-nos o grande profeta Isaías. Peregrinemos, com Maria, até à Porta Santa da Paz, com a agilidade de quem é conduzido pelo Espírito Santo. Percorramos corajosamente os caminhos da Paz, com os nossos gestos de perdão, de ternura, de misericórdia e de amor solidário, até às periferias existenciais e humanas.

Permaneçamos junto da Mãe e escutemos, em silêncio, o seu  coração materno! “Que a doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus” (v.24).

Para todos os queridos diocesanos, para os nossos emigrantes e visitantes, pedimos a proteção de Deus, a Sua Bênção e a Sua Paz, recordando, em prece, a fórmula escutada na primeira leitura: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os Seus olhos e te conceda a paz” (Nm 6, 25-26).

Que o Novo Ano de 2016 seja para todos iluminado pela mensagem do Menino de Belém, o Príncipe da Paz! Com homens e mulheres renovados, abertos à conversão pessoal e empenhados na construção de um mundo mais humano e fraterno, a Paz é o nosso caminho! Com Francisco de Assis, o santo universal da paz, rezemos: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa Paz”.

 

 

Sé do Funchal, 1 de Janeiro de 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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