Homilia no Dia dos Consagrados

02-02-2016 18:00

HOMILIA DE D. ANTÓNIO CARRILHO, BISPO DO FUNCHAL

na Festa da Apresentação do Senhor

Conclusão do Ano da Vida Consagrada

 

Funchal, 2 de Fevereiro 2016

Contemplar e testemunhar a Misericórdia de Deus

Neste dia da Festa da Apresentação do Senhor no Templo, celebramos, jubilosamente, Cristo Luz do mundo, em comunhão com toda a Igreja e, em particular, com o Santo Padre, que ontem e hoje presidiu em Roma, ao encontro mundial que assinalou o Jubileu e a conclusão do Ano da Vida Consagrada. 

 

Tal como na celebração de abertura, no primeiro domingo do Advento de 2014 (igreja do Colégio, 30 de Novembro), também hoje eu  saúdo, com afeto, todos os consagrados e consagradas da Diocese, os nossos sacerdotes, as Irmãs de vida contemplativa, as congregações e ordens religiosas, as sociedades de vida apostólica e os institutos seculares. De todo o coração lhes agradeço o serviço apostólico e missionário de entrega generosa ao Senhor, na oração, no apostolado e no testemunho alegre do Evangelho, especialmente no campo da educação, junto das crianças e jovens, nos seminários, na área da saúde, no apoio às comunidades paroquiais e outras instituições.  

Um canto de louvor e gratidão

Feliz iniciativa do Papa Francisco, o Ano da Vida Consagrada foi, desde logo, assumido pela respetiva Congregação Romana, que adiantou projetos, suscitou dinamismos para a Igreja universal e para as dioceses, organizou encontros de formação de âmbito alargado para diversos grupos e carismas, publicou documentos de reflexão e aprofundamento do sentido e da identidade das vocações de especial consagração.

De entre estes documentos, que mantêm toda a sua atualidade, destacam-se três Cartas Circulares: “Alegrai-Vos, “Perscrutai” e “Contemplai”. Esta última, inspirada no Cântico dos Cânticos, convida a redescobrir a beleza e o encanto da consagração total a Jesus Cristo, pelos caminhos do silêncio e da contemplação do esplendor do Rosto de Deus, na doação total aos irmãos e irmãs, conforme a especificidade de cada carisma.

Chegados, agora, ao termo do Ano da Vida Consagrada, podemos dizer, com D. José Carballo, ofm, Arcebispo Secretário daquela Congregação, numa apreciação muito geral, que foi um ano altamente positivo, um tempo para aprofundar a teologia da Vida religiosa, uma graça enorme para todos os consagrados. “Também para o restante povo de Deus – bispos, sacerdotes e leigos – foi um tempo de graça que tornou possível um conhecimento mais profundo, um acolhimento cordial e uma estima maior da consagração”.

O mesmo podemos dizer em relação à Igreja em Portugal, nomeadamente à nossa Diocese. Na verdade, de particular importância se revestiram, pelo seu profundo significado pastoral e cultural, a celebração do dia do Consagrado (Sé do Funchal, 2 de Fevereiro 2015), e um conjunto de eventos e celebrações que, por feliz coincidência, assinalaram de forma testemunhal a riqueza e a variedade de carismas de muitas vocações de especial consagração: Franciscanos, Irmãs da Apresentação de Maria, Salesianos, Padres Carmelitas, Ordem de São João de Deus, Irmãs Hospitaleiras e Irmãs Vitorianas (cf. Homilia da Missa e Te Deum, Sé do Funchal, 31 de Dezembro de 2015).

Damos, por isso, graças a Deus por tudo quanto vivemos e pela atividade pastoral desenvolvida ao longo deste ano. E juntos, em Eucaristia, lembramos e agradecemos, hoje, de modo particular, a generosa entrega da vida de 17 Irmãs de oito Congregações Religiosas, presentes na nossa Diocese, que, neste ano de 2016, celebram datas jubilares: seis Irmãs, Bodas de Diamante; dez, Bodas de Ouro; uma, Bodas de Prata; e ainda um sacerdote Dehoniano e um Irmão Franciscano, que também celebram, respetivamente, as suas Bodas de Ouro e de Diamante de Profissão Religiosa. Que Deus a todos cumule das maiores bênçãos e os seus testemunhos de alegre fidelidade sejam estímulo para novas vocações.

Na alegria e na luz do Verbo

A festa da Apresentação do Senhor recorda-nos o cumprimento da promessa e longa espera messiânica, a resposta amorosa da parte de Deus, que nos deu o Seu Filho na Sagrada Família de Nazaré. Na apresentação de Jesus e purificação de Maria, que se dirige ao templo para oferecer ao Senhor o seu Filho primogénito, segundo a lei de Moisés, realiza-se uma verdadeira mística do encontro. O Espírito Santo, que iluminou o povo de Deus através da nuvem, agora revela-se na graça e na ternura do Menino. A Luz, que se “há de revelar às nações”, está presente nos braços de Maria e de Simeão. É o encontro simbólico do Antigo e do Novo Testamento.

Maria oferece Jesus ao Pai, a Simeão e a Ana, e a todos nós homens e mulheres de boa vontade, para que Ele seja verdadeiramente a Luz que ilumina toda a nossa vida, nas alegrias e nos sofrimentos, até ao encontro definitivo com o Pai. Esta é a nossa missão: estar sempre com Jesus e oferecê-lo aos outros com o testemunho de vida e com o anúncio jubiloso do Evangelho, apesar das dificuldades, que tantas vezes nos afetam. “Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obedecer, sofrendo e, uma vez atingida a perfeição, tornou-se para todos os que Lhe obedecem fonte de salvação eterna»  (cf. Hb 5, 7-9).

A oração, luz e força dos consagrados

Caríssimos consagrados e consagradas, sois chamados a ser e a irradiar a Luz, a viver a espiritualidade de comunhão, na tomada de consciência da antropologia e eclesiologia trinitárias, dentro de cada carisma. A Igreja confia em vós e agradece o testemunho da vossa entrega sem reservas a Cristo e aos irmãos.

Mas estai vigilantes! Só permanecendo com Jesus, em contemplação no Monte, se reaviva em todos os consagrados a presença do Senhor, o Seu olhar de ternura e de imensa misericórdia, junto das periferias existenciais e humanas. A contemplação cria, no coração dos consagrados e consagradas, uma profunda harmonia que lhes permite olhar os outros e o mundo, com o coração e o olhar de Deus, Pai de Misericórdia. "Cada consagrada e cada consagrado é chamado a contemplar e testemunhar a face de Deus como Aquele que entende as nossas fraquezas, para derramar o bálsamo da proximidade sobre as feridas humanas, combatendo o cinismo da indiferença” (Contemplai,59).

A contemplação, que conduz à intimidade com o Senhor, é uma graça para os institutos religiosos, para a Igreja e para o mundo. Sem contemplação, que pode aparecer como “desperdício” de perfume derramado aos pés de Jesus, como no caso de Maria Madalena, perde-se a criatividade pastoral, o sentido da missão evangelizadora, o sabor e a alegria de servir gratuitamente, em especial os mais desfavorecidos. Os pobres foram confiados à Igreja, que os acolhe como dom e procura ser para eles o coração, o olhar e o amor de Deus, que os abraça.

Ao finalizar o Ano da Vida Consagrada, peço aos membros dos Institutos de especial consagração e aos nossos sacerdotes uma renovada criatividade pastoral, iluminada pelo anúncio jubiloso do amor misericordioso do nosso Deus. O Papa Francisco recorda-nos que toda a ação pastoral da Igreja “deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo” (Rosto da Misericórdia, 10).

A beleza da consagração total a Cristo

Queridos consagrados e consagradas, as diversas vocações e carismas são uma grande riqueza para toda a Igreja e para a família humana. Chamados a viver em fidelidade criativa, ide ao “jardim” dos fundadores para respirar a frescura e a beleza da santidade, das virtudes heroicas, no alvorecer dos vossos Institutos. É preciso escutar o Espírito e deixar-se configurar por Ele para viver e renovar cada um o seu próprio carisma. A “memória agradecida do passado” de cada instituto, na sua história carismática, há de conduzir os seus membros a “viver o presente com paixão” e a “abraçar o futuro com esperança”.

Vivei, pois, totalmente apaixonados por Jesus, numa sociedade quase sem referências aos valores cristãos. Procurai uma formação permanente e atualizada, quanto aos carismas próprios e às exigências da sociedade atual, bebendo nas fontes do Evangelho. Sede testemunhas autênticas e credíveis do amor eterno de Deus pela humanidade. E embora surjam grandes dificuldades de incompreensão da parte de muitos, do envelhecimento e eventual diminuição dos membros dos Institutos, não deixeis apagar a alegria, a esperança e o fogo do Espírito, que renova todas as coisas. Repito: “viver o presente com paixão” e “abraçar o futuro com esperança”! E lembrai o Papa Francisco, no seu encontro de ontem, em Roma, com cerca de cinco mil consagrados, que apontava, como caminhos a abraçar, “a profecia, a proximidade e a esperança”.

Sede sacramento da Luz de Cristo e irradiação do Seu inefável Amor. Que Nossa Senhora da Luz ajude todos os consagrados e consagradas a ser no mundo presença luminosa do mistério de Deus, oceano de Misericórdia. Recordo particularmente os que estão na fronteira, junto dos cristãos perseguidos, dos refugiados e doentes, daqueles que participam mais intimamente do mistério da Paixão de Jesus, prenúncio da vitória Pascal.

E deixo-vos, por fim, algumas palavras de estímulo, apelo e gratidão do Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, em nome dos Bispos de Portugal. Escreve ele na Mensagem para esta data: “Ao terminar o Ano da Vida Consagrada, pedimos a todos os consagrados que não cessem de mostrar o rosto misericordioso do Pai a todos os homens; que fortaleçam a profundidade da sua vida no encontro com o Senhor que os chamou e os conduz; que testemunhem a alegria de viver da fé no meio das indiferenças de muitos; e que continuem a deixar-se seduzir por Aquele que os olhou com misericórdia”.

 

Funchal, 2 de Fevereiro de 2016

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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