Homilia no Dia do Consagrado

02-02-2017 18:29

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa do Dia do Consagrado

Solenidade da Apresentação do Senhor

 

Sé do Funchal, 2 de Fevereiro de 2017

 

Consagrados ao serviço da vida

 

Celebramos, hoje, com muita alegria, quarenta dias após o Natal, a solenidade da Apresentação de Jesus no Templo, e nela, por iniciativa do Papa João Paulo II, em 1997, há precisamente 20 anos, o Dia do Consagrado. Com o tema “Consagrados ao serviço da vida”, proposto para a reflexão da Igreja em Portugal, ao longo da semana que hoje termina (Semana da Vida Consagrada), manifestamos a nossa profunda comunhão com todos os nossos irmãos e irmãs, na inteira disponibilidade ao serviço e defesa de cada vida humana e de toda a criação, nossa casa comum.

Conforme sublinha a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, o Dia do Consagrado adquire, no corrente ano, um significado particular de ação de graças e oração pelo dom das vocações de especial consagração, na perspetiva do próximo Sínodo dos Bispos, já convocado e em preparação para Outubro de 2018, com o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Neste Dia dos Consagrados saúdo, pois, todos os religiosos (as) e membros dos Institutos Seculares da nossa Diocese, que embelezam, enriquecem e iluminam a Igreja, com a diversidade dos seus carismas, quer numa vida contemplativa quer no serviço pastoral mais direto, evangelizador e educativo. Todas estas formas de especial consagração comunicam a sua clara luz, a luz do Evangelho, sobre a vida das pessoas, nas suas diversas situações. Daí o apelo do Papa Francisco: “Sede faróis para os que estão perto e sobretudo para os afastados” (“A busca do rosto de Deus”,5).

Juntos, em Eucaristia, lembramos e agradecemos, de modo particular, a generosa entrega da vida de seis Irmãs de quatro Congregações Religiosas, presentes na nossa Diocese, que, neste ano de 2017, celebram datas jubilares de Profissão Religiosa: três Irmãs, Bodas de Diamante, e outras três, Bodas de Ouro. Que Deus as cumule das maiores bênçãos e os seus testemunhos de alegre fidelidade sejam estímulo para novas vocações.

Cristo, Luz do Mundo

A celebração eucarística de hoje, precedida da bênção e procissão das velas, de grande beleza simbólica, está inundada pela claridade de Cristo, verdadeira Luz do mundo: “Luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo” (Lc 2, 32). Este rito e toda a liturgia da Palavra projetam sobre a Vida Consagrada uma luz intensa, em ordem à sua renovação e autenticidade, e apontam para aquilo que os Consagrados são chamados a viver, no contexto do mundo atual.

Na profecia de Malaquias, escutamos a preocupação de Deus em preparar o seu povo para a chegada do Messias: “Vou enviar o meu mensageiro, para preparar o caminho diante de Mim” (Mal 3,1). Mas, para isso, é imprescindível uma verdadeira purificação, como pelo “fogo do fundidor”, para cantar as glórias do Senhor e oferecer uma oblação agradável a Deus.

No tempo da Nova Aliança, o verdadeiro mensageiro é Cristo, o Consagrado do Pai, “o sacerdote misericordioso”, que por nós morreu na Cruz, como nos refere a Carta aos Hebreus: “De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação” (Heb 2,18).    

No texto de Lucas, o evangelista da infância, contemplamos o Messias prometido, a entrar no templo do Senhor, não como um Rei triunfante, todo poderoso, mas na pequenez da nossa natureza humana, com um coração simples e humilde. É o mistério do despojamento da encarnação do Verbo eterno do Pai.

Este mistério de pobreza e obediência manifesta-se no jovem casal, Maria e José, que, segundo as prescrições da lei de Moisés, apresentam e oferecem o seu filho primogénito ao Senhor. Somos surpreendidos pela presença e dinamismo do Espírito Santo que habita no coração dos pobres e humildes, como Simeão e Ana. Ao tocar no Verbo da Vida e ao contemplá-l’O com amor, Simeão bendiz a Deus, dizendo: “Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo” (Lc 2,29).

Não obstante a alegria inefável daquele momento, uma espada de dor há de trespassar a alma imaculada da Mãe. Este acontecimento salvífico está intimamente ligado àquela “hora” na qual Jesus, o Cordeiro inocente e sem mancha, se entrega incondicionalmente por nós ao Pai, morrendo na Cruz. É que o papel de Maria, na história da salvação, não termina no mistério da Encarnação, mas completa-se na amorosa e dolorosa participação na morte e na ressurreição de Jesus.

Sinais luminosos de esperança

Neste Dia dos Consagrados, não posso deixar de reafirmar a importância das vocações de especial consagração, também no mundo de hoje. Embora atravessando um tempo de crise, em muitos lugares, elas são necessárias e admiráveis, na qualidade do seu testemunho e serviço fraterno, como sinais luminosos de fé e de esperança, numa sociedade carecida de referências e valores humanos e evangélicos.

Dirigindo-se aos consagrados na diversidade dos seus carismas e na necessidade de dar resposta às múltiplas questões e problemas da atualidade, o Papa Francisco faz-se ouvir, com a sua habitual veemência de Pastor universal: A Igreja precisa de vós! Que a vossa paixão por Cristo e o vosso estilo profético de ser pobre, casto e obediente, interpele os nossos jovens e os contagie no seguimento de Cristo, o Consagrado do Pai. Só um amor apaixonado e ardente contagia! Não percais a vossa identidade! Sede alegres na esperança!

Consagrados pelo Espírito Santo, sois chamados a viver “a mística do encontro”, na fraternidade e na relação com os outros. Sois também enviados em missão, sobretudo, a habitar as periferias geográficas e existenciais, para acolher e anunciar aos mais pobres, aos refugiados e aos excluídos da sociedade o amor indizível do nosso Deus!

E lembrando o tema “Consagrados ao serviço da vida”, é preciso que os consagrados e as consagradas estejam sempre na primeira linha, em defesa da vida ameaçada e na proposta de outro modo de viver, possível e necessário. Poucas coisas suscitam admiração, surpresa e atração, como ver as pessoas consagradas ao lado de quem não tem nada, daqueles que são considerados os últimos, os rejeitados da sociedade, estando onde outros não querem estar (Cf Circular Anunciai,77).      

Fascinados por Jesus - Apelo aos jovens

Na sua atividade pastoral, a Igreja acompanha e encoraja os Consagrados a serem testemunhas do Amor, da Alegria e da Esperança. Na verdade, o testemunho de uma vida alegre e feliz é o melhor contributo que podemos dar aos jovens para o seu encontro com Cristo e descoberta da própria vocação.

Assim observava o Papa Francisco, no passado dia 28 de Janeiro, ao receber em audiência os membros da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada: “Não faltam jovens generosos, solidários e comprometidos a nível religioso e social, jovens que buscam uma vida espiritual séria, que têm fome de algo diferente do que o mundo oferece; no entanto, essa busca dos mais novos perde-se, muitas vezes, na lógica do mundanismo, na busca do sucesso a qualquer preço, do dinheiro e do prazer fácil”.

E por isso, o Papa desafia os consagrados a assumirem “o compromisso de estar ao lado dos jovens” e de “os contagiar com a alegria do Evangelho e da pertença a Cristo”, evitando todas as situações de contra testemunho, para que a vida consagrada possa “manter a sua missão profética e o seu encanto”.

A beleza de uma vida oferecida a Deus, sem medo de perder as seguranças e as riquezas do mundo, mas fiar-se unicamente em Jesus e no Seu amor sem limites, em total abandono e confiança, continua a interpelar e a fascinar as novas gerações. “A vida consagrada é uma história de amor apaixonado pelo Senhor e pela humanidade” (“A busca do rosto de Deus”, 9).

Por isso, também eu digo aos nossos jovens, rapazes e raparigas: não tenhais medo de abrir o vosso coração a Cristo e de responder com um “SIM” generoso ao Seu chamamento. Procurai conhecer Jesus mais de perto e as diversas formas de O seguir, satisfazendo o vosso desejo de felicidade e contribuindo, generosamente, para o serviço e felicidade dos outros!

 

Mãe dos Consagrados

Irmãos, agradeço a todos os Institutos de Vida Consagrada a sua presença e atividade, nesta Diocese, e com o Papa Francisco vos recomendo: “sede testemunhas da alegria e da misericórdia”, “levai a todos o abraço de Deus”!

A Maria, Senhora da Luz e da Alegria, mãe dos Consagrados, Senhora do “Sim”, a vós entregamos os nossos projetos, sonhos e esperanças. Nas vossas mãos, renovamos o nosso “Sim” e a nossa entrega incondicional ao Pai, que nos chama e nos envia em missão. De modos diferentes e na diversidade dos nossos carismas, somos consagrados para anunciar o Evangelho, “consagrados ao serviço da vida”.

 

Funchal, 2 de Fevereiro de 2017

† António Carrilho, Bispo do Funchal

 

 

 

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