Homilia no Centenário da morte da Irmã Wilson

16-10-2016 11:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,
na Eucaristia do Centenário da morte
 da Venerável Irmã Mary Jane Wilson
Sé do Funchal, 16 de Outubro de 2016

“Que felicidade conhecer as misericórdias do Senhor!”

                                                                                           Irmã Wilson

 

A Igreja do Funchal alegra-se, neste Ano Santo da Misericórdia, com todos os seus filhos que, ao longo dos tempos, foram o rosto visível da misericórdia de Deus e transformaram o Evangelho da alegria em gestos e palavras, para os seus contemporâneos. Alegremo-nos com o seu testemunho de santidade, testemunho de caridade e de alegria. É que a Igreja necessita de testemunhas, de pedras vivas; necessita de homens e mulheres, que sejam luzeiros da esperança e do amor.

Hoje aqui nos encontramos, na nossa catedral, para celebrarmos o centenário da morte da Venerável Irmã Mary Jane Wilson, em comunhão com toda a família das Irmãs Vitorianas, que ao longo do ano caminhou, preparando esta data como grande oportunidade de reavivar os dons e carismas recebidos da Irmã Fundadora. Recordamos a sua história, damos graças a Deus pela sua vocação e afirmamos o desejo de responder aos desafios do nosso tempo, com a mesma fé, a mesma força e determinação, que ela sempre manifestou.

Luzeiro da esperança e do amor

A Irmã Wilson faleceu no convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos, no dia 18 de Outubro de 1916, com 76 anos de idade, para onde tinha ido, por vontade e com a missão recebida do Bispo meu antecessor, D. António Pereira Ribeiro, de criar uma escola de formação e orientação vocacional para rapazes, em ordem à sua eventual entrada no Seminário Diocesano.

A chegada ao convento de São Bernardino foi para a Irmã Wilson uma grande alegria e a realização de um sonho. Após as dificuldades, as perseguições e o exílio imposto pela Primeira República, surgiam agora novos tempos que lhe permitiam concretizar este seu desejo. Mas Deus tinha outro desígnio, chamando-a a Si, oito dias depois, no dia 18 de Outubro. Rapidamente a notícia da morte se espalhou e uma grande multidão compareceu a prestar a última homenagem à Boa Mãe, como era conhecida. O Bispo do Funchal, D. António Pereira Ribeiro, presidiu ao funeral e muitos foram, também, os sacerdotes que ali estiveram presentes, num gesto de profundo reconhecimento e carinho.

Com a sua vida, obras e fama de santidade, a Irmã Wilson tinha conquistado o coração de todos os madeirenses. Era a Boa Mãe! Ninguém podia esquecer os anos que viveu na Madeira e toda a sua dedicação aos outros, principalmente aos mais pobres: a forma como tinha cuidado dos doentes nas epidemias da varíola e da pneumónica, colocando em perigo a própria vida; a grande capacidade de criar e gerir obras de solidariedade, para acolher e educar crianças, cuidar dos enfermos e dos idosos; e a fundação de um novo instituto religioso, que prolongasse a sua ação pastoral e caritativa, a Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, hoje presentes em onze países de quatro continentes.

Vinde bendita de Meu Pai!

Para ela, como carisma e projeto para a Congregação que fundou, os pobres a quem procurava ajudar, em vista da sua promoção humana e espiritual, eram todos os necessitados, fossem eles pobres “de pão ou de cultura, de amor ou de saúde, de justiça, de fé ou de esperança” (Constituições, 5). Jesus bem pôde olhar para ela e dizer-lhe: tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, cobristes a nudez, suavizastes a doença, combatestes a ignorância, consolastes os tristes, visitastes os encarcerados, vinde bendita de meu Pai! Assim dissera Jesus: “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40).

A Boa Mãe chegou ao Funchal aos 40 anos de idade e rapidamente percebeu a beleza da ilha e da natureza, as flores e os jardins, a bondade e a fé das pessoas, mas como mulher atenta, percebeu também as grandes necessidades da maior parte da população: a fome e a doença, o desamparo das crianças e dos idosos, a falta de catequese e apoio pastoral de muitos sacerdotes.

Perante tal situação, qualquer pessoa podia desanimar e desistir, mas a Irmã Wilson abraçou todos estes desafios com muita fé e a fortaleza daqueles que confiam em Deus. Ela soube acolher e responder, generosamente, aos apelos do seu coração, assumindo-os como verdadeiros apelos de Deus. Não era uma senhora rica, que apenas dava esmolas: era uma mulher simples e pobre, mas inteligente e culta, rica na capacidade de amar e de reconhecer o rosto de Cristo no rosto dos irmãos, até nos mais pequeninos.

O povo madeirense chamava-lhe “Boa Mãe”, agora a Igreja chama-lhe “Venerável”, reconhecendo as suas virtudes heróicas, por decreto do Papa Francisco, de 9 de Outubro de 2013, que a coloca mais perto da sua Beatificação. Como se lê neste Decreto sobre as Virtudes, diante das dificuldades ela mantinha sempre uma alegria serena, porque afirmava: “se existe uma virtude no mundo à qual devemos aspirar é precisamente a alegria”. E mais: “devemos ser firmes no amor divino, como o ilhéu no meio do oceano: batem tempestades de todos os lados e permanece sempre ilhéu”.

Eucaristia e oração perseverante

Onde foi a Irmã Wilson encontrar tanta fé e coragem? Qual era a fonte da sua caridade e proximidade? Como alimentou ela os seus gestos e obras de misericórdia? Podemos responder, sem dúvida, que ela se deixou tocar profundamente pelo amor de Deus. N’Ele encontrou a força para a missão: na oração, na escuta da Sua Palavra e nos sacramentos, mananciais de graça e fortaleza. E no encontro com Deus encontrou os irmãos e os amou com todas as suas capacidades e uma confiança inabalável na Providência Divina.

Era grande o seu amor à Eucaristia! Com a pequenina imagem de Nossa Senhora das Vitórias, agarrada ao peito e suplicando, com ansiedade, uma luz do alto, que rompesse e brilhasse no seu coração, recebeu naquela noite de 30 de Abril de 1873, aquilo que procurava: o grande dom da fé na presença real de Cristo na Eucaristia, fé e sentido de presença, que a acompanhou e foi tão importante para ela, ao longo de toda a vida.

Era grande também o seu gosto pela oração, como “expressão íntima de amor, confiança e entrega à Providência Divina”. Que belo testemunho e estímulo sentimos nós, quando visitamos, na Comunidade do Santo da Serra, aquele pequeno espaço de janela aberta para a capela, donde a Irmã Wilson, já mais velha e doente, tantas vezes contemplava o sacrário; aí permanecia em longos tempos de meditação da Palavra de Deus, de diálogo com Ele no silêncio e na intimidade do coração, como quem escuta o que Ele tem para dizer, em horas de dúvida e discernimento, de alegria ou sofrimento, perante os diversos acontecimentos e situações.

A Irmã Wilson bem entendeu e pôs em prática aquilo que, afinal, a liturgia deste domingo nos sugere e recomenda sobre a oração e a Palavra de Deus, através das leituras há pouco proclamadas. Ancorada na meditação da Palavra, a oração ilumina os caminhos da vida, faz comunhão, suscita o olhar da misericórdia de um coração sereno e confiante; a oração humilde e persistente é, sem dúvida, uma força que revitaliza a fé e a esperança, une mais profundamente a Deus e projeta no amor para com o próximo.

Em louvor e ação de graças

Não é este o momento de relembrar toda a história da vida da Venerável Irmã Wilson. O seu perfil de grande mulher e o testemunho de santidade, que nos legou e a Igreja reconhece, ao proclamar as suas virtudes heróicas, como Venerável a caminho da Beatificação, levam-nos hoje a bendizer e dar graças a Deus pela sua vida e missão, na Igreja e na Sociedade.

Bendizemos a Deus pelo que sonhou e realizou no seu tempo, bendizemos a Deus pela atividade da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, nestes cem anos após a morte dela, como prolongamento do seu carisma evangelizador.

Como é bom recordar, nesta data, o amor da Irmã Wilson à Congregação que fundou e as expetativas e esperanças, que nela depositou. Consta que ao obter a aprovação das Constituições, por parte do Bispo D. António Pereira Ribeiro, a Irmã Mary Jane Wilson muito se alegrou e disse: “Agora morro em paz, porque já vi o que desejava!”. Esta aprovação aconteceu no dia 8 de Maio de 1916, cinco meses antes da sua morte.

À Senhora das Vitórias

Confiemos à Boa Mãe, com fé e muita esperança, as nossas preocupações, necessidades e anseios; a sua vida e as suas virtudes sejam para nós modelo de vida cristã, de amor a Cristo e à Igreja, de entrega generosa ao serviço dos irmãos.

E rezemos à Senhora das Vitórias, para que o desejado e necessário milagre, para a Beatificação da Venerável Irmã Wilson, venha em breve trazer-nos essa grande alegria, com a certeza da sua intercessão e estímulo à santidade da nossa vida.

 

 Funchal, 16 de Outubro de 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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