Homilia no Aniversário da morte de Frei Pedro da Guarda

01-08-2017 08:38

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

no 512º Aniversário da morte de Frei Pedro da Guarda

 

Convento de S. Bernardino, 27 de Julho de 2017

 

O Carisma Franciscano de Frei Pedro da Guarda

 

 

Hoje, celebra a Ordem Franciscana, e muito particularmente o Convento de S. Bernardino, o 512º aniversário da morte de Frei Pedro da Guarda, ou seja, o dia da sua passagem deste mundo para a casa do Pai.

Fazemos memória jubilosa e gradecida de tão insigne filho de S. Francisco, que apesar da sua pobreza e simplicidade, viveu com heroicidade as virtudes. Sendo apenas um irmão leigo, sem formação académica nem teológica, brilhou no firmamento de Deus, “como astro resplandecente, por toda a eternidade”, diz-nos o Livro da Sabedoria. Com júbilo cantamos com o salmista: “Digno é o Senhor de louvor e glória para sempre”.

O cozinheiro santo

O Servo de Deus Frei Pedro da Guarda é conhecido na Ilha da Madeira, no nosso país e até fora dele, pela sua fama de santidade e poderes extraordinários, que lhe foram atribuídos. Dedicou-se intensamente à oração e contemplação e ao serviço da caridade, dentro e fora do seu convento. Fernando Soledade, cronista da Ordem Seráfica, afirma que ele “teve o dom da profecia” e penetrava facilmente no mais íntimo dos corações daqueles que o procuravam, como que adivinhando os problemas e anseios.

Este exímio filho de S. Francisco exerceu o ofício de cozinheiro, acolhendo as pessoas que, de todas as partes da Ilha, lhe solicitavam ajuda material ou espiritual. Era um homem cheio de paz, de alegria e de caridade. Rezam as crónicas, que num dia de tempestade, a enchente da ribeira impedia os frades de ir buscar alimentos. O cronista diz-nos, que por intercessão de Frei Pedro, “bateu à porta do convento um moço com um mimo para a refeição dos frades”. O milagre do pão aconteceu repetidas vezes, bem como o do azeite, do peixe e da carne. Conforme as necessidades da comunidade, o Servo de Deus encontrava na portaria aquilo que era preciso. Segundo Fernando Soledade, o Servo de Deus fez “milagres evidentes e multiplicados”.

 

Um verdadeiro filho de S. Francisco

Natural da Guarda, onde nasceu em 1435, entrou muito jovem na Ordem Seráfica de S. Francisco de Assis. Desde cedo se entregou com toda a generosidade ao serviço do Senhor e viveu heroicamente o carisma franciscano, sendo admirado e venerado pelos irmãos e pessoas que privavam com ele.

A sua humildade profunda levou-o a pedir transferência para outro convento, a fim de fugir à fama e aos louvores dos que admiravam os seus notáveis dons espirituais. Por isso, veio esconder-se num convento franciscano na Madeira. Apesar da mudança não pôde subtrair-se aos louvores, porque a sua santidade era notória: irradiava por todo o lado o perfume e beleza do amor de Deus, que lhe ardia no coração pobre e humilde.

Viveu humildemente neste Convento de S. Bernardino, em Câmara de Lobos, o primeiro a ser construído fora do Funchal. Longe dos ruídos, encontrou aqui um espaço de silêncio e oração, muito propício para a sua índole contemplativa. Faleceu a 27 de Julho de1505, “banhado numa celestial alegria”, como nos refere o cronista.

A proximidade do Deus

As manifestações de Deus na Bíblia revelam-se, muitas vezes, através de fenómenos extraordinários, que até atemorizavam o povo. Na primeira leitura assistimos à teofania e comunicação da aliança no monte Sinai. Disse Deus a Moisés: “Eu virei ter contigo numa espessa nuvem, para que o povo Me oiça falar contigo e acredite em ti para sempre” (Ex 19). Deus convida o povo a aproximar-se e sela com ele uma aliança eterna. A experiência desta proximidade e intimidade exigem purificação e atingem a plenitude na incarnação do Verbo de Deus. Deus está sempre perto, mas é um mistério insondável. Somente pela porta da fé, na comunhão do Espírito Santo, somos introduzidos na contemplação da beleza e felicidade divinas.

Neste momento, recordo a manifestação de Deus no Monte Alverne, o Calvário franciscano, espaço de silêncio e contemplação, ao imprimir no corpo de S. Francisco as Chagas de Cristo. A caridade ardente de Frei Pedro da Guarda, à semelhança do Pobrezinho de Assis, nasceu na intimidade com o Senhor Jesus, o Pobre Crucificado, e manifestava-se em gestos de acolhimento, de ternura e de bondade para com aqueles que o procuravam, pedindo ajuda, em especial os pobres e doentes.

A sabedoria dos pequeninos

No texto do evangelho, a palavra do Senhor aponta-nos caminhos de simplicidade e abertura de coração, ao revelar os mistérios de Deus aos mais pequeninos. “Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Mt11,25).

Na verdade, Frei Pedro foi um destes pequeninos, que viveu santa e heroicamente o evangelho, com verdadeira sabedoria do Espírito. O cronista sublinha algumas virtudes, como “a mansidão, a clemência, o silêncio, a humildade e a modéstia, e um grande amor e reverência ao Sacramento Altar”. E porque seguiu o Senhor apaixonadamente, tudo se tornou leve e suave no seu caminho, apesar de tão árduo e difícil, de grandes renúncias e penitências: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas” (v. 29).

Memorial das maravilhas do Senhor

Como refere Fernando de Soledade, cronista franciscano, na sua “história Seráfica”, a veneração do povo de Deus pelo santo Frade dava “crédito ilustre a este Convento”. De facto, a imortalidade das casas religiosas depende da santidade de vida dos seus membros. S. Bernardino, é memorial das maravilhas do Senhor, cântico de Louvor agradecido ao Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor. Depois da sua morte, todos os anos celebrava-se a festa de Frei Pedro da Guarda.

Ao Convento de S. Bernardino afluíam numerosos devotos e peregrinos. Segundo testemunhos da época, que chegaram até nós, “era a romagem de maior concurso na Ilha”. Para isso, criaram- se espaços de culto e levantaram-se três capelas em honra do Servo de Deus: na cozinha onde ele trabalhou, na lapa onde se recolhia a meditar e, depois da exumação dos seus restos mortais, em 1597, no local da sepultura.  

 

Irmã Mary Jane Wilson

Apraz-me recordar, nesta celebração, a chegada da Ir. Mary Wilson, a 12 de Outubro de 1816, a este convento de S. Bernardino. A sua alma de apóstola e de verdadeira filha de S. Francisco exultou de alegria: “estou num verdadeiro convento, onde nos vamos reunir…” (Mary Jane Wilson, Roteiro, pag.177). Esta alma de eleição, via, finalmente, realizado um grande sonho, no seu profundo amor aos outros, ao sacerdócio e à Igreja.

De facto, o meu antecessor, D. António Manuel Pereira Ribeiro, Bispo do Funchal, pediu à Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias para instalar, no convento de S. Bernardino, uma escola do 1º ciclo do Ensino Básico para seminaristas.

Foi de pouca duração o tempo em que ali permaneceu, pois viria a falecer a 18 de Outubro do mesmo ano, com fama de santidade, já hoje reconhecida nas suas virtudes heroicas, ao ser proclamada Venerável.

Ao celebrarmos, neste dia, o 512º aniversário da morte de Frei Pedro da Guarda, e lembrando o legado de santidade do seu testemunho, que chegou até nós, não podemos deixar de rezar pela sua beatificação. O nosso tempo necessita de santos, que nos estimulem à santidade e nos ajudem a reconhecer o valor da vida quotidiana, quando assumida e penetrada do amor de Deus e serviço do próximo.

E em comunhão com toda a família franciscana, alegremo-nos e saudemo-nos com desejos de “Paz e Bem”!

 

Câmara de Lobos, 27 de Julho de 2017

 

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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