Homilia na Solenidade de São Tiago Menor

05-05-2017 13:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na solenidade de S. Tiago, padroeiro da Diocese,

Sé do Funchal, 1 de Maio de 2017

S. Tiago, um testemunho de fé corajosa e humilde

 

Ao celebrar hoje a festa de S. Tiago Menor, Apóstolo, padroeiro da nossa Diocese, invocamos a sua protecção no ano em que a nossa Catedral completa, a 18 de Outubro próximo, o quinto centenário da sua dedicação. A tradição cristã diz que toda a Igreja é de fundação apostólica. A sucessão apostólica mantém a Igreja, de forma permanente, na fidelidade ao Evangelho de Cristo, pois o Espírito Santo, que anima e fortalece o testemunho dos cristãos na Igreja, garante a verdade da fé, professada e vivida em cada tempo e lugar.

A escolha do padroeiro

S. Tiago Menor foi escolhido em circunstâncias decisivas para a vida da nossa Igreja diocesana e tornou-se um sinal de esperança numa história que foi, por vezes, marcada por acontecimentos dramáticos. O Funchal foi assolado no século XVI por vários períodos de peste. Em 1521, uma grave peste alastrou por toda a cidade. Embora se tivesse procurado isolar os doentes para controlar o surto da peste, todas as precauções pareciam ser vãs.

Gaspar Frutuoso, no seu livro: As saudades da terra, diz que, «no ano de 1521, quando o Rei D. Manuel faleceu, havia grande mortandade de peste […] e porque havia anos que ela andava na cidade [o Cabido e o Senado da Câmara] resolveram escolher por sortes um Padroeiro» entre os Apóstolos. «Depois de se prostrarem diante de Deus em oração, tirou um menino chamado João, o primeiro bilhete, onde se achou escrito o nome de Santiago Menor, a quem logo festejaram com repiques por toda a cidade». Deus escutou tão dolorosas e veementes súplicas, porque, como refere S. Tiago, «a oração da fé salvará o doente e o Senhor o restabelecerá» (5,15).

Dois anos mais tarde, as autoridades civis e o Deão do Cabido reuniram-se novamente na Sé e confirmaram a escolha feita de S. Tiago Menor como seu padroeiro, com o compromisso de o festejarem todos os anos na sua capela com missa e procissão no primeiro dia de Maio.

Em 1538, a peste voltou a assolar a região. Todos, doentes e sãos, foram chamados a participar na procissão e missa do dia 1 de Maio em honra do senhor São Tiago, na capela a ele dedicada na nossa cidade: «Ali, o guarda-mor da saúde da Câmara, sabendo-se incapaz de debelar o mal, disse no meio da ermida em alta voz: ‘Senhor, até aqui, guardei esta cidade como pude: não posso mais. Aqui tendes a vara; sede vós o guarda da saúde’». O guarda-mor foi imediatamente depor a sua vara no altar do santo e, segundo a tradição, todos os doentes melhoraram e a epidemia cessou. Em memória deste gesto, todos os vereadores da Câmara, depois da procissão em honra de S. Tiago, costumam depor as suas varas junto do padroeiro, ao lado do altar da capela, num gesto de gratidão e de prece.

Cumpridores da Palavra

S. Tiago introduz-nos no Evangelho de Jesus. Ele é sobretudo a testemunha da fé no ressuscitado. Como os outros Apóstolos, escolhidos e enviados por Jesus, ele reconheceu a presença do ressuscitado e anunciou-o ao povo de Israel, como outros o fizeram entre as nações.

Sendo o nosso protetor e padroeiro, nós temos em S. Tiago um testemunho de fé corajosa e humilde. Uma fé que não é capaz de solicitar as aspirações mais profundas do nosso coração não pode encontrar em Cristo a sua mais autêntica realização. No testemunho do Apóstolo, a vivência da fé abarca toda a pessoa, em todos os momentos da vida. É um importante fermento, uma luz que age discretamente mas eficazmente para nos humanizar e nos introduzir na comunhão com Deus.

As palavras que hoje ouvimos na carta de S. Tiago são uma exortação forte a nos deixarmos evangelizar para podermos ser testemunhas do Evangelho de Cristo. Antes de falar é necessário ouvir a Palavra de Deus e deixar-se converter por ela. Como diz o Apóstolo, «cada qual esteja pronto para ouvir, seja lento para falar e lento em irar-se». Aquele que sabe escutar aprende a ser justo e misericordioso, afasta-se da ira, caminha na humildade e na paciência.

No mundo da palavra em que hoje vivemos, é mais difícil escutar e compreender, porque isso requer o silêncio e o respeito pelo outro. S. Tiago exorta-nos, no entanto, à verdade da escuta: «Sede cumpridores da palavra, não vos limiteis a escutá-la, pois seria enganar-vos a vós próprios». Escutar e viver ou cumprir a Palavra que é para nós o Evangelho de Jesus, tal é o caminho da evangelização, já realizado e sempre a realizar, porque nós tornamo-nos cristãos quando transmitimos o que recebemos, como diz S. Paulo.

O dom que recebemos pelo Batismo é transmitido na medida em que o vivemos e isso quer dizer que Cristo ressuscitado leva-nos a percorrer os caminhos do mundo sem temer obstáculos e fracassos, sem nos instalarmos no pessimismo. Porque ele vai sempre à nossa frente, está aberto o caminho da esperança. A vitória do ressuscitado é sempre a vitória da esperança e da alegria.

O Papa Francisco falou-nos da alegria do Evangelho e disse-nos que essa alegria é sempre pascal, feita de cruz e de Ressurreição permanentes. É o Espírito Santo que nos introduz na alegria pascal. A semente do Evangelho, a semente do Reino de Deus deve fecundar em permanência a Igreja que somos e a cultura em que vivemos. Tal foi a convicção daqueles que nos precederam e esta é também a nossa, hoje.

500 Anos da Dedicação da Catedral

Na proximidade dos 500 anos da Dedicação da nossa Catedral, temos bem presente que a Igreja, fundada na pedra angular que é Jesus Cristo, é nossa mãe. Nós não seríamos cristãos se não reconhecêssemos o que recebemos dela ao mesmo tempo pela Palavra e pelo sacramento, duas formas essenciais da sua maternidade que aliás não podem ser separadas. A Palavra de Deus é já sacramental e os sacramentos da Igreja são animados pela própria Palavra viva anunciada pelo Apóstolos. A transmissão da Palavra não é um mero ensino, uma catequese. É mais do que isso, uma comunicação da vida de Jesus Cristo, Palavra do Pai, para aquele que lhe quer abrir o seu coração.

No seu testemunho do Evangelho, a Igreja é mãe porque defende e promove a dignidade humana, valoriza a pessoa no que ela tem de único e vive em unidade e comunhão, certamente ainda imperfeitas, mas num espírito de autêntica família. O Evangelho que nos fala da proximidade de Deus em Jesus, promove ao mesmo tempo a nossa proximidade uns com os outros. Numa palavra, personaliza-nos. É dessa valorização da pessoa concreta e única que o mundo de hoje precisa.

A verdadeira adoração do Deus vivo, cuja fonte permanente é a relação de Jesus com o Pai, conduz ao mesmo tempo ao olhar de compaixão e de misericórdia, capaz de agir em favor dos outros. A fé cristã foi sempre uma fonte permanente de humanismo. Deus, diz Teilhard de Chardin, é uma «personalidade personalizante».

O cristão recebeu um nome: «Vós chamastes-me pelo meu nome», exclama Paul Claudel, no momento da sua conversão. Deus chama-nos pelo nosso nome que é o nome do batismo. A nossa identidade pessoal é chamada a crescer e a desenvolver-se nesta casa comum, casa de família, comunidade materna e fraterna que é a Igreja.

S. José Operário

Também hoje, 1 de Maio, dia do trabalhador, a Igreja universal faz memória de São José Operário. Nesta data, a Igreja alerta-nos, mais uma vez, para a realidade do mundo do trabalho e dos trabalhadores, nas suas potencialidades e problemas, para que o trabalho seja, efetivamente, uma forma de realização humana e de serviço à comunidade, e para que o trabalho se realize em condições de dignidade e respeito dos direitos humanos em geral, nas diversas áreas da atividade dos homens e das mulheres!

Recordo todos os trabalhadores, particularmente os que vivem e trabalham sem as condições mínimas, os desempregados, os que vivem em regime de trabalho precário, os que sofreram acidentes de trabalho e ficaram diminuídos nas suas capacidades; enfim, todos os que carecem de perspetivas para o trabalho que realizam ou procuram, de ânimo e coragem para vencerem as lutas e dificuldades da vida de cada dia.

E termino, pedindo a Deus que os católicos da nossa Diocese, vivendo e testemunhando a sua fé, sejam hoje, como ao longo dos 500 anos da sua história evangelizadora, promotores da alegria e da esperança, da caridade e da justiça, da prosperidade e da paz. Que a Senhora da Assunção, padroeira desta Catedral, e S. Tiago, padroeiro da Diocese, intercedam por nós nesta missão comum de anúncio e testemunho do Evangelho de Cristo.

Funchal, 01 de Maio de 2017

 

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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