Homilia na Solenidade de São Francisco de Assis

04-10-2016 18:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

 

Na Solenidade de S. Francisco de Assis

Convento de S. Bernardino, 4 de Outubro de 2016 

 

S. Francisco, Evangelho vivo de Paz e Bem !

 

Nesta celebração eucarística, em comunhão com a Família Franciscana de todo o mundo, fazemos memória jubilosa da figura de singular santidade, que continua a iluminar a Igreja e a sociedade – S. Francisco de Assis. O nosso hino de gratidão eleva-se a Deus, Pai das Misericórdias, em quem S. Francisco descobriu a paternidade e consequente filiação divina, de que foi um verdadeiro intérprete do anúncio profético da fraternidade universal.

Francisco é um homem cheio do Espírito do Senhor, apaixonado por Deus, pela humanidade e pela criação, que ainda hoje continua a suscitar grande simpatia e admiração em todo o mundo. De onde lhe advém tão grande simpatia? Francisco transformou-se em Evangelho vivo a anunciar a Paz e o Bem! O Santo de Assis sintonizou, tantos séculos antes, com o pensamento do nosso Papa Francisco de “uma Igreja em saída” e o apelo especial para habitar as periferias geográficas e existenciais do nosso tempo. No coração da Igreja, o seu beijo ao leproso determinou a sua vocação evangélica de entrega total a Jesus e aos pobres mais pobres.

Francisco de Assis, ícone do Evangelho vivo

A liturgia da Palavra derrama sobre nós uma luz imensa de bondade e misericórdia divinas, que muito nos ajuda a compreender Francisco, o apaixonado do mistério de Belém e da Cruz de Cristo. Na verdade, as santíssimas palavras de Nosso Senhor encontraram no Poverello uma ressonância profunda. Diz-nos Tomás de Celano, o seu primeiro biógrafo, que Francisco “não era um homem que orava, era a própria oração”.

No excerto do livro de Ben-Sira, da literatura sapiencial bíblica, que escutámos na primeira leitura, contemplamos o sábio, que realizou uma obra notável na casa do Senhor, porque as suas virtudes resplandeciam admiravelmente no meio do seu povo: Como um sol radioso, assim brilhou ele no templo do Senhor” (Ben-Sirá 50,7). À semelhança deste sábio, Francisco pequenino, pobre e humilde, viveu o Evangelho e restaurou a casa do Senhor: a sua luz brilhou nas ruínas e na noite da história do seu tempo e continua a brilhar  no nosso tempo.  

A Cruz, mistério do triunfo e da glória do Amor

S. Paulo, no texto aos Gálatas, fala da sabedoria e ciência da Cruz, que enche de alegria e de glória o Apóstolo das Gentes. Para ele, viver era Cristo - a sua única razão de existir: “Trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gal 6,18). O Monte Alverne, o calvário franciscano, é memorial do amor de Francisco ao Crucificado, com quem mantinha uma relação habitual, íntima e viva. Nesses momentos de profunda oração amorosa, transformou-se noutro Cristo, com as chagas do Senhor impressas no seu corpo martirizado.

O Evangelho de S. Mateus, de grande beleza e simplicidade, evoca a intimidade de Jesus com o Pai, a sua oração filial de louvor e ação de graças, cheia de confiança e proximidade. É o mistério da paternidade e filiação divinas, com a terminologia e profundidade que lhe são peculiares, núcleo da pregação de Jesus. Filho único e amado do Pai, desde toda a eternidade, só Jesus conhece verdadeiramente o Pai. Só Jesus podia dizer estas palavras: “Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt  11,29). Francisco aprendeu, na contemplação da Palavra, a viver em profunda intimidade pessoal com Jesus pobre, manso e humilde de coração. Deixou um rasto de Luz que é apelo urgente à esperança, a uma autêntica vida de fé, à mansidão e à paz, num mundo marcado pela violência, a perseguição e a guerra.

O cantor da Misericórdia e da Alegria

O canto de Francisco, cuja fonte brota do Evangelho da Paz, feito de ternura e de simplicidade, é sempre atual e não é por acaso que Assis é a cidade universal da Paz.  Neste Ano Santo Jubilar da Misericórdia, apraz-me evocar três grandes eventos de particular importância para a Ordem Franciscana e para toda a Igreja.

Recordo, em primeiro lugar, os oito séculos do Perdão de Assis, memorial da superabundância do perdão da Porciúncula “de mandar todos ao paraíso”.  Sobre esta indulgência extraordinária, os Gerais das Ordens Franciscanas escreveram e assinaram uma carta conjunta com a exortação a toda a Família Franciscana: “Somos, porém, chamados a encontrar caminhos para animar os homens à reconciliação e à paz, tocando seus corações com o testemunho da minoridade, da simplicidade, da beleza e do canto, da verdade de relações fraternas e imediatas que remetem àquilo que é essencial”. Francisco, o homem dos grandes silêncios e do cântico do Irmão Sol, é também o irmão que está próximo dos outros, sempre vigilante, que se enternece até às lágrimas na presença dos irmãos leprosos.

Lembro, também, o envio e visita do Tau da Misericórdia às Fraternidades, a recordar os 800 anos da chegada dos franciscanos a Portugal, mais concretamente, a Alenquer, em 1216. Como sabeis, o Tau é o símbolo por excelência, que marca e identifica o carisma de S. Francisco.

Recordo, ainda, o recente  Encontro Mundial de Oração pela Paz, em Assis, 30 anos depois do primeiro encontro histórico inter-religioso, com São João Paulo II, em 1986.

Na cerimónia conclusiva deste encontro mundial de oração "Sede de paz - Religiões e culturas em diálogo", o Papa Francisco consciente do “novo e tristíssimo paganismo da indiferença” do nosso tempo, afirmou, em Assis: “Não temos armas, mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. A oração protege e ilumina o mundo”. 

O Santo Padre fez um forte e veemente apelo à paz. Na terra natal de S. Francisco, fez-se um minuto de silêncio em memória das vítimas das guerras e do terrorismo em todo o mundo. Além do ramo de oliveira, símbolo da paz, foram confiadas a um grupo de crianças algumas cópias do documento “Apelo pela Paz 2016” para serem entregues aos responsáveis políticos e diplomáticos presentes em Assis, como representantes dos países de todo o planeta.  

O chamado Espírito de Assis continua, assim, a irradiar a luz de Cristo e da Sua Misericórdia a todos os povos e culturas, e a inquietar o coração da humanidade com uma insaciável e ardente sede de paz, de reconciliação, em harmonia e respeito pela natureza, a nossa “casa comum”.

Paz e Bem para todos! S. Francisco de Assis, rogai por nós.

 

Câmara de Lobos, 4 de Outubro de 2016

 

†António Carrilho, Bispo do Funchal

Voltar

Contactos

Diocese do Funchal
Largo Visconde Ribeiro Real, 49
FUNCHAL
9001-801

 

© 2015 Todos os direitos reservados.

Diocese do Funchal - Gabinete de Informação