Homilia na Solenidade de Santa Luísa de Marillac

09-05-2017 18:48

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade de Santa Luísa de Marillac

no 4º Centenário do Carisma Vicentino

 

Sé do Funchal, 09 de Maio de 2017

 

Converter-se ao pobre, promover a sua dignidade!

 

A Conferência Episcopal Portuguesa congratulava-se, em 10 de Novembro passado, com os quatrocentos anos do carisma vicentino, referindo-se a ele como uma inspiração celeste e uma intuição fundacional de grande fecundidade apostólica, qual árvore frondosa, com mais de 200 ramos. O primeiro deles é aquele que, hoje, denominamos Associação Internacional da Caridade, e que começou por ser conhecido por Senhoras ou Damas da Caridade. Nasceu em 1617 e, neste mesmo ano, foi aprovado oficialmente pela Diocese de Lyon.

Simbolicamente, Vicente de Paulo, como Jesus, rodeara-se de doze “apóstolas dos pobres”, para dar início à irradiação da rede de caridades que, pouco a pouco, se foi diversificando, segundo os rostos de pobreza que ia encontrando nos caminhos pastorais que percorria. Nada de admirar que as iniciativas se multiplicassem e que os colaboradores e colaboradoras crescessem em número e em compromisso.

 

O Carisma Vicentino na Diocese do Funchal

 

A nossa Diocese do Funchal associa-se à ação de graças por este dom, porque também ela tem beneficiado dele, desde a segunda metade do século XVIII. Primeiro, de forma periódica, pela presença dos Padres da Missão em Missões Populares pela Ilha; depois, a partir do século XIX, de modo mais constante, pela ação das Filhas da Caridade no Hospício D. Maria Amélia (1862) e dos Padres, como Capelães do Hospício, formadores no Seminário Maior da Diocese, colaboradores ativos na imprensa cristã regional e pregadores de missões populares. A Sociedade de S. Vicente de Paulo, hoje presente em toda a Diocese, teve na Paróquia de S. Pedro, Funchal, a sua segunda conferência particular, a nível nacional (1875), enquanto a Associação Internacional da Caridade inicia a sua missão socio-caritativa, sediada no Hospício, em 1876.

Importante, foi também, o papel da “Associação das Filhas de Maria”, não só pelas inúmeras vocações religiosas femininas que dela brotaram, como também pelo apoio às vocações que se destinavam aos Seminários, pela colaboração nas Paróquias como catequistas e outras tarefas pastorais e no encaminhamento de alguns dos seus membros para o movimento “Mães cristãs”.

Santa Luísa de Marillac, proclamada por S. João XXIII patrona celeste de todos os que se dedicam à ação social cristã, cuja solenidade hoje celebramos e sob cuja proteção vive a Associação Internacional da Caridade, nos ilumine a todos. Que ela seja uma referência modelar para esta Associação, que se compromete a “salvaguardar a nossa casa comum”.

Praticar a justiça e a caridade

As leituras que acabamos de escutar colocam-nos em sintonia com o carisma vicentino, tal como Vicente de Paulo fez a radiografia do pobre. Na primeira leitura, o Profeta Isaías relembra ao povo um imperativo divino sobre o sentido da prática do jejum, enquanto prática de caridade e de justiça. Não se trata de algo de anódino, incolor, diz o Profeta; antes, um compromisso com a libertação de toda a espécie de escravidões – “destruir todos os jugos”. A opressão não faz parte do léxico divino. Isaías evoca-nos o Êxodo: “Ouvi o clamor do meu povo” – diz Deus. E, logo, pôs em marcha todo um processo de libertação.

Deus quer filhos e filhas, não escravos nem escravas. Para que os ouvintes de Isaías não pensem que estão diante de desafios gigantescos, ele relembra os gestos mais acessíveis e simples: repartir o pão com o faminto, dar pousada aos sem-abrigo, vestir os que não têm roupa, não voltar as costas ao semelhante, ao outro. É que não podemos transformar o mundo, se não começarmos por transformar o nosso próprio mundo. Transformamo-lo, quando começamos a sarar as nossas feridas e a tornar luminosa a nossa existência. Ela torna-se, então, como “uma nascente, cujas águas nunca secam”.

Foi em 1617 que Vicente de Paulo se deixou tocar por Deus ao deixar-se converter por um pobre e ao converter-se ao pobre. Não para o eternizar na sua pobreza, mas para o reinvestir na sua dignidade de outro. S. Vicente de Paulo passou à prática do jejum, segundo a proposta de Isaías, rodeou-se de discípulos e discípulas, inspirou uma multidão de outros ao longo destes séculos, para que, no silêncio e na confidencialidade, todos eles se esforçassem por denunciar a desumanidade da pobreza e revelar o pobre como o “próximo” que é amado por Deus e deverá ser amado por nós.

“Nossos mestres e senhores”

São Tiago reforça Isaías: “A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir aceção de pessoas”. Nem na teoria nem na prática. E interroga-nos sobre algo que vai direto à nossa própria identidade cristã: “Não são eles (os pobres) que ultrajam o nome sublime que sobre vós foi invocado?” Como se ele dissesse que é inconcebível a existência do pobre entre os humanos, porque não há filhos amados e filhos desprezados. Não há distinção entre filhos, consequentemente entre irmãos. Se a fizermos “cometemos pecado” e seremos “julgados segundo a lei da liberdade”. Por isso, o Autor invoca o que ele chama a “lei régia” da Escritura: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Não é sem razão, pois, que Vicente de Paulo foi chamado o Grande Santo da Caridade, aquele que apelidava os pobres “nossos mestres e senhores”. Foram eles que o puseram no caminho da conversão até ao final da sua vida e são eles que têm seduzido muitos outros e outras, inspirados nele, a se deixar guiar pela mesma interpelação: a vergonha do pecado da pobreza.

São João dirige-nos idêntica mensagem, na linguagem que lhe é peculiar: a do amor. O amor que liberta dos grilhões da escravidão, que pratica a justiça e rompe com as estruturas do pecado: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas chamo-vos amigos…” Neste tempo pascal vamos lendo como estes ”amigos” seguiram o Mestre até ao fim, até à doação das suas próprias vidas, no cumprimento de que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. É este amor que salva, que congrega, que alimenta a fraternidade e que franqueia os portões da Casa d’Aquele que nos acolhe a todos sem distinção, porque nos criou a todos e a todos quer salvar.

Mensagem de amor

Termino, citando o texto da conclusão da Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, fazendo-a da Diocese e minha, com o mesmo júbilo e em idêntico tom de ação de graças e de súplica: “A Conferência Episcopal exorta, em Cristo, os herdeiros do carisma de S. Vicente de Paulo, em Portugal, a sentirem-se comprometidos com todas as situações que degradam a situação da dignidade do homem. À luz da mensagem de misericórdia de que dá testemunho o Pontificado do Papa Francisco, crentes e não crentes estão agora mais atentos à desumanidade das periferias humanas e existenciais. Caminha ao encontro dessa mensagem de amor misericordioso o carisma vicentino, que deve colocar o mundo dos pobres no centro de atenção de todos os cristãos e homens de boa vontade”. Amém.  

 

Funchal, 9 de Maio de 2017

António Carrilho, Bispo do Funchal

 

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