Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição

08-12-2015 21:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal

Sé do Funchal, 8 de Dezembro de 2015

Celebrar a Imaculada Conceição, no Ano Santo da Misericórdia!

Na solenidade da Imaculada Conceição, a Igreja inteira rejubila e louva a Santíssima Trindade, pelo singular dom de Maria, a Mãe Imaculada. Cheia de graça e bendita entre todas as mulheres da terra, isenta do pecado por especial privilégio, a Virgem Maria foi “remida da forma mais sublime” (LG. 53). A Igreja reconheceu, desde os seus primórdios, “a brilhante e singular santidade de Maria”, que lhe vem totalmente de Cristo.

Celebramos hoje a Imaculada Conceição. Na verdade, foi no dia 8 de dezembro de 1854 que o Papa Pio IX proclamou este Dogma, dizendo: “Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que afirma que a bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro momento da sua conceção, por graça de Deus, foi preservada imune de toda a mácula do pecado original, é uma doutrina revelada por Deus e que assim deve ser acreditada firmemente”.

Mãe do Verbo Incarnado, Ela é verdadeiramente nossa Mãe na ordem da graça e modelo de perfeita santidade. Como filhos, digamos com profunda alegria e gratidão ao nosso Deus: Cantai ao Senhor um cântico novo: o Senhor fez maravilhas”(Sl 97).

Mãe e Padroeira principal de Portugal

Integrada no tempo litúrgico do Advento, a solenidade da Imaculada Conceição remonta ao séc. XI. Portugal, na sua multissecular história religiosa, dedicou à Virgem Imaculada particular amor e devoção, a quem venera como Mãe e sua Padroeira principal.

Na verdade, como sinal de homenagem e gratidão filial do povo português, no dia 25 de Março de 1646, D. João IV proclamou, por decreto real, num ato solene, a "eleição da Bem-aventurada Virgem Maria sob a invocação da Santíssima Conceição, como particular, única e singular Advogada e Protetora do Reino de Portugal". A Santa Sé, no pontificado de Clemente X, aprovou e confirmou o decreto de El-Rei, que ofereceu a coroa real portuguesa a Nossa Senhora de Vila Viçosa, depondo-a a Seus pés.

Mensagem de esperança e amor

A Palavra de Deus ilumina-nos sobre o mistério do imenso amor de Deus pela Humanidade. O mundo criado com sabedoria para glória de Deus, manifesta e proclama nas suas obras a sublime bondade do Criador. Ao ser humano, síntese da obra da criação, foi concedido o dom da liberdade, rica expressão da imagem divina.

A primeira leitura, um excerto do livro do Génesis (cf. 3, 9-15.20), é a narração simbólica da desordem que o pecado provocou no homem e na mulher, a sua rutura com Deus, com os outros e com a criação. Mas Deus, na Sua infinita bondade, não abandonou o homem no seu pecado. Vai ao encontro dele com profunda e amorosa preocupação: “Onde estás?” (Gen 3,15). A desobediência havia gerado medo, desconfiança, tristeza e morte. Foi a obediência de Maria que reatou a amizade e a harmonia perdidas.

A resposta de plenitude ao amor indiscritível do Pai surge em Seu Filho Jesus, “com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”, como escutamos na segunda leitura, na Epístola de S. Paulo aos Efésios. Neste belo hino cristológico sobressai a inefável caridade do Pai, a redenção do mundo, a nossa filiação divina em Cristo e a vocação última da Humanidade, chamada a ser “um hino de louvor da sua glória (Ef 1,12). “O Verbo de Deus, por meio do qual tudo foi criado, fez-Se carne, tornando-Se homem perfeito para salvar todos os homens e recapitular em si todas as coisas” (GS, 45).

A força criadora do Espírito Santo

O “Sim” da Anunciação, recordado no texto do Evangelho (cf. Lc 1, 26-38), iluminou a história do mundo. A partir desse momento, Maria consagrou-se, inteiramente, ao serviço de Deus e de toda a família humana: “Eis a Serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (1,38). Tal como no início da criação o Espírito Santo estava presente com a sua força criadora, também na Anunciação do Anjo, é o mesmo Espírito o autor da nova Criação, através do “Sim” incondicional de Maria à Palavra de Deus.

Maria foi verdadeiramente o mais belo hino de louvor da glória do Pai e a Igreja não cessa de a contemplar, de a venerar e de a apontar como modelo, nas suas excelsas virtudes. Como nos recorda o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Igreja (Lumen Gentium), Maria, “nossa Mãe na ordem da graça” (n. 61), “brilha como modelo de virtudes” (n. 65), “brilha como sinal de esperança segura e de consolação para o Povo de Deus, ainda peregrinante” (n. 68).

Memória do Concílio Vaticano II

Nesta solenidade da Imaculada Conceição não posso deixar de fazer memória do Concílio Ecuménico Vaticano II, remontando 50 anos atrás, ao dia 8 de dezembro de 1965, data do seu encerramento. Na verdade, reunindo em Roma, em torno do Papa e sob a sua presidência, cerca de 2500 Bispos de todo o mundo, para juntos refletirem sobre a Igreja e a sua missão, o Concílio foi, de facto, importante e constituiu uma graça imensa para a Igreja e para o Mundo.

Fazer hoje memória do Concílio constitui, sem dúvida, um convite a reler e aplicar a mensagem conciliar aos mais diversos campos da ação pastoral, nomeadamente à consciência do verdadeiro sentido da missão da Igreja e da sua presença no mundo, no contexto da vida atual. Uma Igreja que o Vaticano II apresenta como “luz dos povos”, ideal e projeto de vida em Cristo, caminho de realização e felicidade para os homens e mulheres de hoje. Uma Igreja que há de estar presente na sociedade em geral e nas suas diversas instituições, não apenas na ação sócio caritativa que desenvolve, mas anunciando e testemunhando tantos outros valores, que refletem a riqueza humana e espiritual do Evangelho de Cristo.

Ano Santo da Misericórdia

Para assinalar e comemorar este grande evento, já considerado o maior da vida da Igreja, no século XX, promulgou o Papa Francisco, com a Bula “O Rosto da Misericórdia”, um Jubileu extraordinário, o Ano Santo da Misericórdia, que tem hoje início, com a abertura solene da Porta Santa, na Basílica de São Pedro, em Roma, e se prolongará até ao dia 20 de Novembro de 2016, Solenidade de Cristo Rei.

Este Jubileu tem por lema “Misericordiosos como o Pai”. No seguimento das linhas teológicas e orientações pastorais do Concílio Vaticano II, a Igreja é chamada agora, 50 anos depois, a redescobrir a beleza e a ternura de Deus, a revigorar a fé e testemunhar a alegria de seguir Jesus com generosidade, a contemplar o Seu amor misericordioso. Escreve o Papa, “Jesus é o rosto da misericórdia do Pai (Bula,1) e tal como Ele é misericordioso, também nós somos chamados a ser misericordiosos, uns para com os outros (cf. Bula,9).

Na feliz expressão do Santo Padre, em recente entrevista, “a revolução da ternura é o que temos de cultivar como fruto deste Ano da Misericórdia”, pois “daqui deriva a justiça e tudo o resto […]. O mundo tem necessidade de descobrir que Deus é Pai, que é misericórdia, que a crueldade não é caminho” (Credere, revista oficial do jubileu).

Em profunda comunhão com a Igreja Universal, neste dia tão especial da abertura da Porta Santa, em Roma, aqui desejo recordar o que já foi anunciado, quanto ao início do Ano da Misericórdia na nossa Diocese, no próximo domingo, dia 13, às 16.00 horas, partindo em peregrinação da igreja do Colégio até à Sé, onde será aberta a Porta Santa da misericórdia e celebrada a Eucaristia.

 Para este grande momento da vida diocesana, convido todos os sacerdotes, membros dos institutos de vida consagrada e leigos, iniciando juntos a caminhada do Ano Santo. Nas outras igrejas jubilares da Diocese, serão os párocos a abrir as respetivas Portas da Misericórdia, no domingo seguinte, dia 20, com o rito oficial apropriado, na celebração eucarística que tenham por mais adequada.

No Jubileu da Misericórdia, ninguém melhor que Maria, a Imaculada Conceição, para ser referência e nos ajudar a viver os desafios e os planos de Deus para nós e para o mundo, com coração humilde, disponível e generoso. Maria é a estrela resplandecente que nos acompanhará neste Ano Santo de graça e misericórdia. Connosco, nesta dinâmica jubilar, teremos também a materna e jubilosa presença da Virgem Peregrina de Fátima, nossa Mãe e Senhora, entre os dias 13 de Fevereiro e 6 de Março de 2016: saibamos acolhê-la e que a sua passagem entre nós seja uma grande bênção para toda a Diocese.

Com Maria, ao ritmo do Advento

Fixemos, pois, o nosso olhar no rosto da Mãe Imaculada, que nos aponta caminhos de fraternidade, de perdão, de amor compassivo e misericordioso. Com Maria aprendamos a contemplar Jesus, o Rosto da Misericórdia do Pai, para O comunicarmos alegremente aos nossos irmãos e irmãs. Lembra-nos o Papa Francisco: “Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (Bula,10).

Como Maria, Senhora do Advento e da Alegria, preparemos o Natal de Jesus, com inteira submissão à vontade de Deus, numa abertura total e jubilosa ao seu coração misericordioso e ao amor dos nossos irmãos e irmãs.

O Advento é tempo de escuta e conversão, alegre partilha e amor solidário. Toda a quadra do Natal há de ter sempre muito viva a marca da fraternidade cristã, traduzida em gestos concretos de presença e ajuda a quem mais precisa. Assim, de acordo com o parecer do Conselho Episcopal, a renúncia do Advento reverterá, também neste ano, a favor do Fundo Social Diocesano, destinado a ajudar famílias em situações especiais de pobreza, nomeadamente por razões de desemprego e maiores necessidades no apoio às crianças, idosos e doentes. A recolha das ofertas será feita nas missas da Festa da Epifania, nos próximos dias 2 e 3 de Janeiro.

Prece final

Irmãos: A Maria-Mãe, Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, nos dirigimos, neste tempo de incerteza, perplexidade e sofrimento para muitos, rogando-lhe que nos fortaleça e ajude a vencer as dificuldades de cada dia, conduzidos pela Palavra de seu Filho Jesus!

Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, rogai por nós!

Sé do Funchal, 8 de Dezembro de 2015

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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