Homilia na Quarta-feira de Cinzas

01-03-2017 18:43

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal, na Missa de Quarta-feira de Cinzas 2017

Sé do Funchal, 1 de Março de 2017


À escuta da Palavra, ao encontro dos Irmãos

 "Convertei-vos a Mim
de todo o coração..." (Joel 2,12). Com a celebração litúrgica de hoje, quarta-feira
de Cinzas, a Igreja inicia a sua caminhada quaresmal, tempo especial de graça,
de conversão pessoal e comunitária, como preparação para a solene e frutuosa celebração
da Páscoa, acontecimento central da nossa fé cristã.

As cinzas são sinal de penitência, convite ao arrependimento
e à conversão; lembram a fragilidade e finitude humanas neste nosso peregrinar,
a caminho da eternidade de Deus. É assim que o rito da bênção e imposição das
cinzas não pode ser apenas um gesto exterior, de mera tradição, mas um
compromisso interior exigente, na escuta da Palavra e na fidelidade à voz do
Espírito.

A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa; tempo de
saborear e aprofundar o sentido do nosso Baptismo, nas suas múltiplas
implicações; tempo de aceitar o desafio de caminharmos ao encontro do
verdadeiro rosto de Cristo, em escuta atenta da Palavra, na oração e no
acolhimento da reconciliação sacramental; tempo de voltar para o Senhor com
todo o coração, em conversão de amor a Deus e aos irmãos.

Palavra e conversão

O verdadeiro dinamismo quaresmal parte da leitura,
interiorização e vivência da Palavra de Deus, que deve pautar a nossa vida pessoal,
familiar, eclesial e social. "A Palavra divina introduz cada um de nós no
diálogo com o Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele"
(Bento XVI, Verbum Domini, 24).

O texto do livro do profeta Joel, que acabámos de escutar, acentua
a exigência de renovação interior: "Convertei-vos a Mim de todo o coração (...)
Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos" (Joel 2,12-13). Trata-se de uma
mudança, de uma conversão verdadeira e profunda do próprio coração, que no
sentido bíblico significa a totalidade da pessoa. Este convite estende-se a
todas as pessoas de todas idades e tem como resposta certa a presença libertadora
e salvadora do amor misericordioso de Deus: "O Senhor encheu-Se de zelo pela sua
terra e teve compaixão do Seu povo" (Joel 2,18).

Na segunda leitura, S. Paulo pede aos irmãos da comunidade de
Corinto que, pelo amor de Cristo, se reconciliem com Deus. Na teologia Paulina,
Cristo crucificado assume o mistério da nossa iniquidade: "identificou-O Deus
com o pecado por amor de nós" (2Cor 5, 20), para nossa salvação; e que ninguém
receba em vão a Sua graça.

A loucura e sabedoria da Cruz, que tanto apaixonam Paulo, são
a visibilidade do indizível amor do Pai pela Humanidade, que se revela na
entrega voluntária do Filho, como Cordeiro inocente, imolado sobre a Cruz. "Não
sejamos insensíveis à bondade de Cristo", recomenda-nos Santo Inácio de
Antioquia.

O verdadeiro espírito da penitência 

No texto do Evangelho de S. Mateus, Jesus introduz-nos no dinamismo
da autêntica conversão, agradável a Deus. Esta não consiste num conjunto de
práticas exteriores de aparente religiosidade: Jesus não condena as sãs
tradições religiosas da esmola, oração e jejum, mas pede que sejam praticadas
com pureza de intenção, com verdadeiro espírito religioso.

Estes gestos de renúncia devem ser realizados sem ostentação,
com alegria e humildade, no segredo que só o Pai conhece. Disse Jesus: "Tende
cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes
vistos por eles (Mt 6,1); e acrescenta: "Não saiba a tua mão esquerda o que faz
a direita" (Mt 6,3).

É que a penitência quaresmal, nascida como exigência do amor
misericordioso de Deus, aponta para o encontro íntimo e pessoal com Ele, para a
reconciliação da própria pessoa, das famílias e da sociedade. É o testemunho alegre
da verdadeira "metanóia" ou conversão, mudança de mentalidade e comportamentos.

Todos temos experiência de como a alegria interior constitui
a melhor recompensa para a nossa generosidade e partilha, para a nossa atenção
e serviço de amor aos irmãos e irmãs que mais sofrem. De facto, somos felizes
na medida em que partilhamos a vida e os dons que Deus nos concede.

Na verdade, perante os problemas humanos e sociais, que hoje
preocupam a Igreja e a sociedade, todos somos chamados a estarmos atentos uns
aos outros, a não nos mostrarmos alheios e indiferentes ao destino dos irmãos,
a prestarmos atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. Se cultivarmos este
olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade e
a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão.

Mensagem do Papa Francisco

O Papa Francisco na sua Mensagem para a Quaresma deste ano,
inspirando-se na parábola comovente do rico e do pobre Lázaro, sublinha a
importância da Palavra de Deus na vida do cristão, bem como a necessidade e
urgência de prestarmos atenção e ajuda aos nossos irmãos. É assim um convite à
escuta da Palavra e ao encontro dos irmãos.

Com o tema "A Palavra é um dom. O outro é um dom", o Santo
Padre alerta-nos para uma atenção maior e sempre vigilante ao grito dos mais
pobres e dos marginalizados, que encontramos nos caminhos da nossa vida, como
Lázaro, à espera de ajuda, de acolhimento, compreensão e amor. Escreve o Papa
Francisco que "a quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada
necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo" (Mensagem,1).      

Por vezes, os nossos corações fecham-se à partilha e não reconhecem
esse rosto de Cristo naqueles que interpelam a nossa consciência, comodismo ou
indiferença. Como antídoto para os nossos males ("amor ao dinheiro e ao poder,
vaidade e soberba"), Francisco afirma que a Palavra de Deus pode ajudar a
transfigurar e curar os sentimentos dos nossos corações, abrindo-nos aos outros
como verdadeiros dons e cada um de nós encontra-os no próprio caminho.

É assim que a Igreja, procurando ser fiel a Cristo e aos homens,
continua a afirmar o valor da vida humana e um profundo respeito pela dignidade
da pessoa, desde o seu nascimento até à morte natural: "Cada vida que vem ao
nosso encontro é um dom e merece acolhimento, respeito, amor. A Palavra de Deus
ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é
frágil" (Mensagem,1).

Em breve síntese, escreve o Papa: "Amados irmãos e irmãs, a
quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos no encontro com Cristo vivo na
Sua Palavra, nos sacramentos e no próximo. (...) Que o Espírito Santo nos ajude a
realizar um verdadeiro caminho de conversão, para redescobrir o dom da Palavra
de Deus, ser purificados do pecado que nos cega e servir Cristo nos irmãos
necessitados" (Mensagem,3).

Renúncia quaresmal 2017

Em espírito de solidariedade e partilha fraterna, pensamos
nas situações de carência mais próximas de nós, mas não esquecemos, também, muitas
outras necessidades materiais e espirituais, que a Igreja encontra em tantas
terras de Missão.

Repartimos, por isso, a renúncia da quaresma deste ano de
2017, em duas partes iguais: uma parte, conforme proposta do Conselho
Presbiteral, para o Fundo Social Diocesano, com o principal intuito de ajudar
as famílias mais carenciadas, designadamente algumas famílias de emigrantes,
que neste momento se apresentam com dificuldades; a outra parte, atendendo ao
recente apelo do Papa Francisco, será para ajudar a população do Sudão do Sul,
país africano que vive um conflito fratricida e uma grave crise alimentar, onde
milhares de pessoas morrem de fome, especialmente crianças.

As ofertas desta renúncia quaresmal serão recolhidas em todas
as igrejas e capelas, conforme é costume, nos ofertórios das missas de Sábado e
Domingo de Ramos, ou seja, nos próximos dias 8 e 9 de Abril. Como sempre, a
participação é muito livre, segundo as possibilidades e a consciência pessoal
dos fiéis, na certeza de que Deus não deixará sem recompensa qualquer gesto de
atenção e partilha fraterna.

Com Maria, junto da Cruz

E agora, irmãos, sob o olhar compassivo de Maria, que nos
convida a escutar o Senhor, a partilhar e a amar, caminhemos jubilosamente em
direção à Páscoa. Que ela nos acompanhe neste percurso quaresmal, pelos
caminhos do Espírito e da comunhão fraterna; e como ela, junto da Cruz de seu
Filho, aprendamos a sabedoria e a coragem da fé, o sentido e o alcance do amor
redentor de Jesus.

E com o Papa Francisco, "rezemos uns pelos outros para que,
participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e
ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa".

               

Funchal, 1 de Março de 2017

† António Carrilho, Bispo do Funchal



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