Homilia na Missa do Final do Ano e Te Deum

31-12-2015 19:39

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Eucaristia com “Te Deum”, no final do Ano de 2015

Vence a indiferença e conquista a paz!

 

 “O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz” (Nm 6,26). Neste último dia do ano, viemos junto do altar do Senhor, com fé e confiança, celebrar a Eucaristia e cantar “Te Deum Laudamus”, trazendo connosco o que vivemos ao longo do ano que está a terminar e também as nossas preocupações, desejos e projetos quanto ao futuro.

Envolto, ainda, na ambiência festiva do Natal, eleva-se, da memória do nosso coração agradecido, um hino de louvor e gratidão a Deus, pelos benefícios e dons recebidos, durante este ano de 2015. Apesar das dificuldades e preocupações, que nos possam ter afetado, cada um de nós bem conhece e agradece ao Senhor as múltiplas graças, que nos concedeu.

Celebrando, nesta tarde, a liturgia da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, proclamamos, com toda a Igreja, a maternidade divina de Nossa Senhora e confiamo-nos à sua proteção maternal. Celebrando, também, o Dia Mundial da Paz (49º), que se repete no dia 1 de Janeiro de cada ano, desde já suplicamos para o nosso mundo uma especial proteção de Deus e de Maria-Mãe, na descoberta dos caminhos do desenvolvimento, da fraternidade e da paz, de que tanto carece.

Em louvor e ação de graças

Em espírito de louvor e ação de graças, apraz-me recordar alguns acontecimentos mais relevantes da vida da Igreja. Assim, no âmbito diocesano, recordo, em primeiro lugar, todo o dinamismo pastoral conseguido através das múltiplas atividades de aprofundamento da fé e de comunhão eclesial, realizadas nas paróquias e arciprestados, de acordo com os respetivos programas e em resposta aos objetivos próprios do “Ano da Vida Consagrada, Ano Vocacional”, em que a nossa Diocese não podia deixar de se empenhar.

De particular importância se revestiram, pelo seu profundo significado pastoral e cultural, a celebração do Dia do Consagrado (Sé do Funchal, 2 de Fevereiro) e um conjunto de eventos e celebrações que, por feliz coincidência, assinalaram de forma testemunhal a riqueza e a variedade de carismas de muitas vocações de especial consagração.

Merecem particular referência neste ponto, além da inauguração e bênção do restaurado convento franciscano de S. Bernardino (Câmara de Lobos, 3 de Março e 3 de Maio), a celebração dos 90 anos da vinda e presença das Irmãs da Apresentação de Maria na nossa Diocese (25 de Março, Sé); a comemoração dos nascimentos de S. João Bosco, fundador dos Salesianos (bicentenário, 31 de Janeiro, na Sé) e de Santa Teresa de Jesus, Carmelita (V Centenário, 28 de Março, na igreja do Carmo); e ainda a comemoração do centenário da morte de S. Bento Menni, da Ordem de S. João de Deus e fundador das Irmãs Hospitaleiras (28 de Abril, na Sé) e abertura do centenário da morte da Irmã Mary Jane Wilson, fundadora das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias (18 de Outubro, na Sé).

Data marcante foi também para nós o dia 28 de Julho, em que muitos diocesanos se congregaram na Sé para celebrar o grande Jubileu Sacerdotal das Bodas de Ouro e de Prata de 12 ordenações presbiterais: quatro de 50 anos, incluindo o Bispo diocesano, e oito de 25 anos, religiosos e diocesanos. Foi, sem dúvida, um dia especial para a Diocese, em ação de graças pelos serviços prestados em diversas áreas do ministério sacerdotal e em súplica, pedindo ao Senhor muitas e santas vocações de Pastores para o Povo de Deus. Uma grande Assembleia Diocesana do Ano da Vida Consagrada.

Sentir com a Igreja Universal

Motivo de profunda ação de graças foi ainda para todas as Dioceses, também para a nossa, a Visita ad Límina dos Bispos portugueses, a Roma, nos dias 7 a 12 de Setembro: uma extraordinária oportunidade de encontro com o Papa Francisco e de lhe expressar os vínculos da nossa comunhão, como Sucessor de Pedro, Pastor da Igreja Universal. Um encontro muito fraterno e cheio de interpelações pastorais.

No âmbito da Igreja Universal multiplicam-se os motivos de louvor e ação de graças a Deus pelo grande dinamismo e empenho evangelizador do nosso Papa Francisco que, pela sua simplicidade e proximidade, atenção e cuidado dos mais frágeis (pobres e doentes, crianças e idosos, migrantes e refugiados, em particular) abriu novos caminhos e perspetivas à presença da Igreja no tempo atual, lançando também fortes desafios e interpelações aos vários quadrantes da sociedade.

Desejando concretizar alguns pontos desta atividade e anúncio profético, cumpre-nos salientar a publicação da Encíclica Laudato Si (Louvado Sejas) sobre o cuidado da casa comum (Roma, 24 de Maio), um documento notável e corajoso, verdadeiro alerta do Papa para as grandes questões ecológicas do nosso tempo e para a responsabilidade de todos na sua resolução; as visitas apostólicas e ousadas mensagens do Papa, ao longo deste ano, especialmente as realizadas a Cuba e Estados Unidos, com intervenções no Congresso norte-americano (primeiro Papa a fazê-lo) e na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), terminando em Filadélfia no VIII Encontro Mundial das Famílias (26 e 27 de Setembro); a América do Sul (6 a 12 de Julho), visitando o Equador, Bolívia e Paraguai; e a primeira visita à África (25 a 30 de Novembro), não temendo correr os riscos desta viagem ao Quénia, Uganda e República Centro Africana, como Pastor que dá a vida pelo seu rebanho. 

De referir, ainda, pela sua importância e alcance, os trabalhos do segundo Sínodo da Família (4 a 25 de Outubro), cujos resultados se aguardam com expetativa, e a proclamação do Jubileu Extraordinário ou Ano Santo da Misericórdia (8 de Dezembro 2015 a 22 de Novembro 2016), assinalando o 50º Aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II. Projeta-se diante de nós a figura de Cristo, o Bom Pastor. É Ele o rosto da Misericórdia do Pai.

Para além destes âmbitos mais diretamente eclesiais devemos, também, dar graças a Deus por todos os esforços realizados pela comunidade eclesial, civil e política, perante a crise global atual e apesar dela, no sentido de se promover o bem comum e construir a paz, através das respetivas instituições, públicas e privadas, que se empenham em ajudar os mais carenciados. E não podemos esquecer, também, os incontáveis gestos humildes, de ternura e generosidade, nas famílias, entre os vizinhos e nos espaços de trabalho, que, certamente, não ficarão sem recompensa (cf. Lc 6,32).

Com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, em profunda comunhão eclesial, damos graças por todas as maravilhas, que o Senhor realizou em nós e por nós, e reiteramos o nosso Canto de Louvor: Te Deum Laudamus! Nós Vos louvamos, ó Deus!

49º Dia Mundial da Paz

Irmãos: “Vence a indiferença e conquista a paz” é o tema escolhido e proposto pelo Papa Francisco para a celebração do 49º Dia Mundial da Paz, que ocorre amanhã, dia 1 de Janeiro de 2016. Vivendo, ainda, em clima de Natal, desde já nos sentimos interpelados a acolher Jesus, Príncipe da Paz, e a viver a dinâmica do amor fraterno, que ressalta da graça da encarnação do Filho de Deus. É que o sentido da fraternidade é essencial para a construção da verdadeira paz e do bem comum.

Neste Ano Santo Jubilar da Misericórdia, a Igreja convida-nos a olhar para a infinda Misericórdia de Cristo e a escutar o Seu Coração trespassado na Cruz. O Papa Francisco recorda-nos a urgência da ternura de Deus, do seu abraço de Paz e Misericórdia, no testemunho de vida pessoal e comunitário. “A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo” (Bula O Rosto da Misericórdia, 25).

Face à grave crise económica e social, aos atos terroristas, à violência e globalização da indiferença no mundo atual, o Santo Padre convidou a humanidade a passar a Porta Santa espiritual, com amor, “para renovar o tecido da sociedade, tornando-a mais justa e solidária”.

O Santo Padre refere na sua Mensagem as variadas fisionomias da indiferença, mas especifica algumas das mais preocupantes: “a primeira forma de indiferença na sociedade humana é a indiferença para com Deus, da qual deriva também a indiferença para com o próximo e a criação. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo prático, combinados com um pensamento relativista e niilista” (Mensagem, 3).

“A indiferença para com Deus supera a esfera íntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera pública e social (…) A indiferença para com o próximo – filha da indiferença para com Deus – assume as feições da inércia e da apatia, que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social” (Mensagem, 3).

Urgência de Paz no coração do mundo

Além dos compromissos dos chefes de estado e da comunidade internacional para promover a paz, este apelo dirige-se a todos os homens e mulheres de boa vontade. “É indispensável o contributo da família, da escola, de operadores culturais, dos media, mas também dos intelectuais e dos artistas. Só podemos vencer a indiferença, enfrentando juntos este desafio”, diz o Santo Padre. E acrescenta: “Também os Estados são chamados a cumprir gestos concretos, atos corajosos a bem das pessoas mais frágeis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes” (Mensagem, 8).

Urge fomentar a cultura da solidariedade e da misericórdia para vencer a indiferença e construir a paz. “Este comportamento de indiferença pode chegar inclusivamente a justificar algumas políticas económicas deploráveis, precursoras de injustiças, divisões e violências, que visam a consecução do bem-estar próprio ou o da nação” (Mensagem, 4). Todos podemos comprovar as influências nefastas causadas pela globalização da indiferença, na ecologia humana e ambiental.

O Concílio Vaticano II aponta-nos para Cristo, único Salvador da humanidade, que é também a nossa Paz. “A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os homens” (Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et spes,78).

A nossa prece

A Maria-Mãe, Senhora da Paz, dirigimos agora a nossa prece: vinde, Senhora, ensinar-nos como viver a verdadeira paz, a paz que nasce da verdade e da justiça, mas também dos pequenos gestos de ternura, do silêncio e do diálogo, da compreensão e do perdão. A Paz encontra na “fraternidade” o seu fundamento e o seu caminho!

Para todos os queridos diocesanos, para os nossos emigrantes e visitantes, pedimos a proteção de Deus, a Sua Bênção e a Sua Paz, recordando, em prece, a fórmula escutada na primeira leitura: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os Seus olhos e te conceda a paz” (Nm 6, 25-26).

 

Sé do Funchal, 31 de Dezembro de 2015
† António Carrilho, Bispo do Funchal

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