Homilia na Missa do Final de Ano e Te Deum

31-12-2016 16:33


Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,
 
na Missa e "Te Deum", no final do Ano de 2016
 
 
Sé do Funchal, 31 de dezembro de 2016
 

"O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz" (Nm 6,26). Neste último dia do ano, viemos junto
do altar do Senhor, com fé e confiança, celebrar a Eucaristia e cantar "Te Deum Laudamus" (Nós Vos louvamos, ó Deus), trazendo connosco o que vivemos ao longo do ano que está a terminar e também as nossas preocupações, desejos
e projetos quanto ao futuro.

Envolto, ainda, na ambiência festiva do Natal, eleva-se, da memória do nosso coração agradecido, um hino de louvor e gratidão a Deus, pelos benefícios e dons recebidos, durante este ano de 2016. Apesar das
dificuldades e preocupações, que nos possam ter afetado, cada um de nós bem conhece e agradece ao Senhor as múltiplas graças, que nos concedeu. Assim, por exemplo, ao mesmo tempo que recordo a perda de vidas e bens, causada pelos incêndios do verão passado, lembro também os gestos de solidariedade e corajoso empenho de todos,
instituições e população em geral, na atenção e proximidade, na ajuda fraterna
a quem necessitava de apoio.

Celebrando, nesta tarde, a liturgia da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, proclamamos, com toda a Igreja, a
maternidade divina de Nossa Senhora e confiamo-nos à sua proteção maternal. Celebrando, também, o Dia Mundial da Paz (50º), que se repete no dia 1 de Janeiro de cada ano, desde já suplicamos para o nosso mundo uma especial proteção de Deus e de Maria-Mãe, na descoberta dos caminhos do desenvolvimento, da fraternidade e da paz, de que tanto carece.

Memória jubilosa e agradecida

Em registo de louvor e ação de graças, apraz-me recordar, neste momento, alguns acontecimentos mais relevantes da vida
da Igreja, especialmente na nossa Diocese.

Recordo, em primeiro lugar, a vivência do Jubileu da Misericórdia, com o lema "Misericordiosos como o Pai",
que mobilizou tantas das nossas paróquias e grupos apostólicos em torno dos objetivos de conversão, reconciliação e ajuda fraterna que nos eram propostos. E no encerramento do Ano Jubilar, o Papa publicou a carta apostólica "Misericordia
et Mísera", para dar continuidade ao dinamismo do Ano Santo e para que a misericórdia seja sempre a forma como a Igreja anuncia o Evangelho. "Nada do que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão", diz o Papa. Seja pois a Igreja, para o mundo, sinal da grande misericórdia de Deus.

Evoco, também, a visita da Imagem Peregrina de Fátima à Madeira e Porto Santo, a Senhora da Paz, que nos veio
despertar para uma maior autenticidade de vida cristã, na oração, na escuta da
Palavra, na mudança de perspetivas de vida e de comportamentos. Esteve entre
nós de 13 de fevereiro a 6 de março de 2016, na preparação para o centenário
das aparições de Nossa Senhora em Fátima, que terá a presença do Papa Francisco
nos dias 12 e 13 de Maio de 2017. Multidões acorreram a Maria à procura do seu
olhar de Mãe, que tudo conhece e compreende, para encontrar nela conforto e luz
para os sofrimentos e tristezas dos seus corações aflitos. E muitos foram
aqueles que, pela sua intercessão maternal, se encontraram com Deus e levaram
esperança ao coração de tantos outros.

Lembro, ainda, como especial motivo de louvor e ação
de graças, a publicação da Exortação Apostólica do Papa Francisco "A Alegria do Amor" (Amoris Laetitia -Roma,
19 de março de 2016), como anúncio do projeto cristão católico sobre o amor e a
Família. "Trata-se de uma proposta para as famílias cristãs, que as
estimule a apreciar os dons do matrimónio e da família e a manter um amor forte e cheio de
valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência; (...) a
serem sinais (marido e mulher, pais e filhos) de misericórdia e proximidade
para a vida familiar", escreve o Papa Francisco (AA,5).

Recordo a recente ordenação do diácono Carlos Ismael Almada em vista ao sacerdócio. É uma esperança e um estímulo a continuar a rezar pelas vocações de especial consagração, a pedir ao Senhor mais
sacerdotes, religiosos e missionários.

Não podemos esquecer, por fim, a Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, na Polónia.
Jovens do mundo inteiro e também da nossa Diocese se encontraram com o Papa.
Dirigindo-se aos jovens, o Papa disse-lhes que não há nada mais triste que ver
um jovem "reformado", um jovem "aposentado": é triste ver
jovens que desistiram da vida e de sonhar.


E chamou a atenção para o perigo de procurar a vida por caminhos obscuros e
nocivos, pois a resposta aos anseios de felicidade não está nas ilusões, mas numa
Pessoa, que para nós é Jesus Cristo. É Ele que nos impele a percorrer novos
caminhos e mais vastos horizontes. Há que "sair do sofá", viver com
ideais e transmitir aos outros a alegria de ser cristão!

Nós Vos louvamos, Senhor!

Estas datas e os grandes projetos pastorais que lhes estão ligados - Ano da Misericórdia,
Centenário de Fátima, família, jovens e vocações - constituem, sem dúvida,
temas e momentos fortes da vida diocesana, vividos em comunhão com as outras dioceses
e a Igreja Universal, pelos quais cantamos: Te Deum Laudamus!

Para além destes âmbitos mais diretamente eclesiais, devemos também, dar graças a Deus por todos os esforços
realizados pela comunidade eclesial, civil e política, perante as
dificuldades do tempo presente e apesar delas, no sentido de se promover o bem
comum e construir a paz, através das respetivas instituições, públicas e
privadas, que se empenham em ajudar os mais carenciados. E não podemos
esquecer, também, os incontáveis gestos humildes, de ternura e generosidade,
nas famílias, entre os vizinhos e nos espaços de trabalho, que, certamente, não
ficarão sem recompensa (cf. Lc 6,32).

Com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, em profunda comunhão eclesial, damos graças por todas as maravilhas, que o Senhor realizou em nós e por nós, e reiteramos o nosso Canto de Louvor: Te Deum Laudamus! Nós Vos louvamos, ó Deus!

Anunciadores da alegria, construtores da Paz

O texto de São Lucas, há pouco proclamado, está na continuação da liturgia da Noite de Natal. Nele se sublinha
a intervenção sobrenatural de Deus na vida dos pastores, que acorrem,
apressados, à gruta de Belém e "encontraram Maria, José e o Menino deitado
na manjedoura" (Lc 2,16).

Foi o primeiro eautêntico Presépio vivo
da história do mundo! Deus aproxima-se da Humanidade no rosto de Jesus Menino.
Naquela ternura e na simplicidade de Belém percebemos o Seu modo de agir: é um
Deus paciente e bondoso, cheio de misericórdia, que convida, propõe caminhos e
nos cativa, sempre de novo, para Ele.

Na atitude dos pastores o Evangelho,
convida-nos a procurar o Menino-Deus e a contemplá-l'O; mas diz-nos que os
pastores voltaram para a cidade e anunciaram tudo o que tinham visto. Também
nós, como os pastores, não podemos ficar apenas no Natal, na contemplação do
nascimento: o encontro com o Menino-Deus deverá tornar-nos anunciadores da
alegria e da esperança, construtores da paz.

50º Dia Mundial da Paz

O Papa Francisco, face aos problemas e
sofrimentos da humanidade, particularmente às atrocidades da guerra e suas consequências
devastadoras, em algumas partes do mundo, quis assinalar a celebração dos 50
anos do Dia Mundial da Paz com o tema: A não-violência: estilo de uma política
para a paz,  na sua habitual mensagem para este Dia. O Santo Padre
dirige-se, em primeiro lugar, aos chefes de Estado e das Comunidades das
Confissões
Religiosas e aos responsáveis da Comunicação Social, para que fomentem e criem
uma autêntica cultura da Paz. Deu particular relevo ao desenvolvimento de uma
ecologia integral, humana, religiosa e ambiental, que é o verdadeiro caminho
para a paz.

Na verdade, urge cultivar nas famílias a
não-violência, a mudança de mentalidade e de coração, numa abertura criativa ao
Espírito Santo, que é fonte de Paz e Alegria, na doação e ajuda aos que mais
precisam da nossa compreensão, reconciliação e misericórdia.
E o Papa pede a Deus que ajude a inspirar na "não-violência" os
nossos sentimentos e valores, afirmando: "Desde o nível local e diário até
ao nível da ordem mundial, possa a
não-violência tornar-se o estilo característico das nossas decisões, dos nossos
relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas. (...) Sejam
a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros
nas relações interpessoais, sociais e internacionais" (Mensagem,1).

 A violência não é remédio para
nada nem para o nosso mundo dilacerado. Jesus viveu num mundo carregado de
violência e "ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam
a violência e a paz, é o coração humano" (Mensagem,3). Por isso, acolher o
Evangelho é deixar Cristo afastar do nosso coração todo o sentiment de ódio, de
vingança, de violência e deixar-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se
instrumento de paz, de reconciliação. Como exortava São Francisco de Assis:
"A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos
vossos corações". Peçamos a Deus que nos conceda esse dom da paz: a paz
nos nossos corações, paz nas famílias e na sociedade, paz entre as nações.

A nossa prece

A Maria-Mãe, Senhora da Paz, dirigimos
agora a nossa prece: vinde, Senhora, ensinar-nos como viver a verdadeira paz, a
paz que nasce da verdade e da justiça, mas também dos
pequenos gestos de ternura, do silêncio e do diálogo, da compreensão e do
perdão. A Paz encontra na "fraternidade" o seu fundamento e o seu
caminho!

Para todos os queridos diocesanos, para
os nossos emigrantes e visitantes, pedimos a proteção de Deus, a Sua Bênção e a
Sua Paz, recordando, em prece, a fórmula escutada na primeira leitura: "O
Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te
seja favorável. O Senhor volte para ti os Seus olhos e te conceda a paz" (Nm
6, 25-26).


 
Funchal, 31 de dezembro de 2016
 
† António Carrilho, Bispo do Funchal

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