Homilia na Missa de abertura do Jubileu da Misericórdia

13-12-2015 00:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

na Missa de abertura do Jubileu da Misericórdia

 

Sé do Funchal, 13 de dezembro de 2015

“Eu sou a porta: se alguém entrar por Mim será salvo” (Jo 10,9)

Em comunhão com toda a Igreja e particularmente com o Santo Padre, que neste dia abriu solenemente a Porta da Basílica de São João de Latrão, catedral de Roma, a Igreja diocesana do Funchal exulta de alegria no Senhor pela abertura da Porta Santa da nossa catedral, a marcar o início, entre nós, do Ano Santo do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco para toda a Igreja, com a bula “O Rosto da Misericórdia” (Misericordiae Vultus).  

A nossa Diocese abraça esta iniciativa do Santo Padre e, por isso, aqui nos encontramos, vindos das várias paróquias e sintonizados no mesmo espírito jubilar. Caminhámos em peregrinação, com cânticos de súplica e de alegria, atravessámos a Porta da Misericórdia, fizémos memória do nosso batismo, que é a porta da nossa entrada na Igreja, e celebramos a Eucaristia em louvor e ação de graças pelo mistério do imenso amor de Deus pela Humanidade. 

Misericordiosos como o Pai

Disse Jesus: «Eu sou a porta: se alguém entrar por Mim será salvo» (Jo 10, 9). Ele é a porta e o caminho da Salvação (cf. Jo14,6), Ele é o rosto da misericórdia do Pai (MV, 8). Diz-nos o Papa Francisco que “o Jubileu significa a grande porta da misericórdia de Deus, mas também as pequenas portas das nossas igrejas, abertas para permitir que o Senhor entre e sempre nos renove, mas abertas também para que possamos sair a anunciar a alegria do Evangelho” (Audiência Geral, 18 Novembro).

Lemos no Livro do Apocalipse: «Estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei na sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo» (3, 20). Atravessar a Porta Santa e celebrar o Jubileu será este nosso abrir a porta a Deus que nos aguarda e espera por nós, a Deus que quer entrar na nossa vida, no nosso coração e dar-nos vida em abundância. A porta da misericórdia faz lembrar a porta do coração misericordioso de Deus, aberto no lado trespassado de Cristo na cruz (cf. Jo 19,34).

Abrir as portas é deixar Deus entrar e iluminar a nossa mente, abrir os nossos corações aos outros; olhar com os olhos de Deus, rico em misericórdia, o mundo em que vivemos, construímos e sonhamos; libertar o nosso coração e as estruturas da Igreja e da sociedade, de tudo o que seja egoísmo e maldade.

Atravessar a Porta Santa é ser também uma Igreja de portas bem abertas para acolher, para integrar, para sarar, para ser próxima, atenta e misericordiosa. Todo o Jubileu aponta para um maior compromisso da Igreja em viver num dinamismo de saída, em constante missão, empenhando-se na importante e necessária tarefa de ir ao encontro de todos, levando-lhes a bondade e a ternura de Deus (MV, 5).

“Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso” é o lema do Jubileu. Abre-se, assim, um tempo novo, um ano da graça para contemplar o mistério da misericórdia, que é fonte de alegria, serenidade e paz; uma oportunidade para fixarmos o nosso olhar no rosto de Cristo e nos tornarmos, nós próprios, sinal eficaz do agir do Pai (MV, 2-3). Tal como Cristo é misericordioso, assim somos chamados, também nós, a sermos misericordiosos uns para com os outros (MV,9).

Um convite à Alegria

A Palavra de Deus proclamada nas leituras deste III Domingo do Advento é um convite à alegria. Diz-nos o profeta Sofonias: “Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria... Exulta, rejubila de todo o coração... O Senhor teu Deus está no meio de ti” (3, 14). No mesmo sentido diz São Paulo na segunda leitura: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. O Senhor está próximo” (Fl 4,4).

Estas leituras expressam bem que a fonte da alegria está na presença e na proximidade de Deus. É Ele a causa da nossa alegria. Por tal razão, este III Domingo do tempo de preparação para o Natal é conhecido como o “Domingo da Alegria”, a apontar para a proximidade do nascimento de Jesus, para a alegria do Natal.

Diz-nos o Papa Francisco que a alegria cristã é uma alegria serena, tranquila, que acompanha sempre o cristão, porque brota da certeza de que Deus nos ama; que somos importantes para Ele; que estamos sempre nas Suas mãos. É esta alegria que nos deverá animar ao longo de todo o Jubileu da Misericórdia, porque a misericórdia de Deus é fonte de alegria; e como diz São Paulo, “Quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria”  (Rm 12,8).

Ser peregrino à luz da Palavra de Deus

Para vivermos o dinamismo profundo de conversão e de graça, que o Ano Santo inclui, o Papa convida-nos a caminhar juntos (famílias, paróquias, grupos), a peregrinar até às igrejas jubilares, na cidade de Roma ou nas outras dioceses do mundo. Celebrar o Jubileu é fazer caminho, peregrinar para a meta que é a vida da graça, a santidade; a meta que é o encontro com Cristo. Será assim, em primeiro lugar, uma verdadeira peregrinação interior para o conhecimento pessoal de cada um e o acolhimento do Espírito Santo, o grande dom de Deus.

Seja, pois, a Palavra de Deus a luz que nos ilumina nesta caminhada. Através dela e fazendo silêncio orante, ouvir o que Ele tem para nos dizer, venha ter connosco e ilumine as diversas as situações da nossa vida. Daí o grande relevo dado ao Evangeliário, no rito inicial: colocado à frente da nossa procissão, aparece como sinal de Cristo que caminha à frente do seu povo, e presença da sua Palavra, que é luz e guia para os seus discípulos.

Celebrar o Sacramento da Reconciliação

Esta peregrinação interior é uma caminhada de conversão e renovação espiritual, de descoberta da alegria do perdão e do amor de Deus, sempre pronto a perdoar. Como é importante e consolador saborear a misericórdia e o perdão de Deus, no Sacramento da Reconciliação, Penitência ou Confissão! Só uma Igreja reconciliada é uma Igreja reconciliadora.

Possam os sacerdotes disponibilizar-se ainda mais para acolher aqueles que procuram o rosto da misericórdia de Deus e prever, na programação pastoral, catequeses e outras iniciativas que favoreçam a melhor compreensão, aproximação e apreço por este Sacramento. E antes de mais, vivamo-lo nós próprios, sacerdotes, como exigência profunda e uma graça para revigorar o caminho de santidade, que nos propomos no exercício do nosso ministério (cf. Carta do Papa João Paulo II aos sacerdotes, 2002).

E que toda a dinâmica das indulgências, que é a dinâmica da conversão e da purificação, nos ajude a libertar-nos, em especial neste Ano Santo, de tudo o que possa ser resíduo do mal e do pecado, habilitando-nos a agir com caridade, a crescer no amor (MV, 22).

Obras de misericórdia

O Evangelho deste dia coloca-nos a todos a questão apresentada por quantos se aproximavam de João Batista, nas margens do Jordão: “Que devemos fazer?”- perguntavam (Lc 3,10). Na verdade, também neste Ano Santo, não basta apenas refletir, rezar ou celebrar: o Jubileu tem de conduzir à ação, a descobrir e saborear a alegria da caridade, a entender que uma vida feita entrega e serviço não é uma vida perdida, mas uma vida ganha, uma vida com sentido. É que a vida cristã passa pelos gestos de misericórdia e atenção aos outros; passa pela partilha de bens e pelo abandono de todo o egoísmo, ódio ou vingança.

Como recomenda o Papa, o Jubileu será um tempo oportuno para refletir sobre as obras de misericórdia, corporais e espirituais, e praticá-las com gestos e atitudes, próprios do discípulo de Jesus, que Se identifica com todos aqueles a quem fazemos o bem: “ Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40).

A este propósito escreve o Papa: “No anúncio e testemunho, que (a Igreja) oferece ao mundo, nada pode estar desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo” (MV, 10). E como interpelação muito direta, diz ainda: “ Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais […] Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs, privados da própria dignidade, e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda” (MV, 15).

Importa ousar sempre responder aos desafios de cada tempo e lugar, com Deus no coração. Seja, pois, o Ano Jubilar um desafio a ir mais longe numa caridade organizada e num maior dinamismo da ação sócio-caritativa dos movimentos e das paróquias. E que a Igreja, na sua missão profética, saiba anunciar e articular a justiça com a misericórdia (cf. MV 20) .

Maria, Mãe de Misericórdia

A terminar, quero convidar-vos a colocar os olhos na Virgem Santa Maria: ela é a Mãe da Misericórdia. Em breve, bem de madrugada, estaremos reunidos, por toda Madeira e Porto Santo, a celebrar as Missas do Parto, na proximidade do Natal. Que Maria nos acompanhe neste itinerário, nesta bela tradição e oportunidade de prepararmos os corações para receber Jesus Menino, saboreando e testemunhando cada um a alegria de ser cristão.

Funchal, 13 de Dezembro 2015

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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