Homilia na Missa Crismal

24-03-2016 10:28

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

em 5ª-feira Santa – Missa Crismal

Funchal, 24 de Março 2016

Testemunhas da Misericórdia do Pai !

Com Cristo, Sumo e eterno Sacerdote, em plena caminhada Jubilar do Ano Santo da Misericórdia, aqui nos reunimos para celebrar a solene Missa Crismal, testemunhando a unidade da Igreja Diocesana e a misericórdia eterna do Pai, que nos chamou ao Ministério Sacerdotal. Quinta feira Santa, dia da Eucaristia e do Sacerdócio, é o dia por excelência do presbitério e de cada sacerdote. É a nossa festa!

Manifesto, neste momento, a mais profunda comunhão com todos os nossos sacerdotes. Não só os que estão aqui presentes, mas também com todos aqueles que, pela doença ou idade, vivem numa maior intimidade e participação no mistério Pascal de Cristo, e não puderam estar aqui connosco. A Igreja agradece o testemunho das suas vidas e generosa doação sacerdotal, agora numa diferente mas preciosa colaboração espiritual.

Na luz da Misericórdia

Neste Ano Santo da Misericórdia, todos nós, sacerdotes, somos convidados a aprofundar o dom e o mistério do sacerdócio, como ministros da reconciliação e da misericórdia, ao serviço do povo de Deus. Recordo as palavras, sempre belas e atuais, que acompanham a entrega da patena e do cálice, no ritual da nossa ordenação: “Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor”.

Fomos ungidos e enviados em missão pelo Espírito do Senhor. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18; cf. Is 61,1). Recebemos a força do Espírito Santo para entrarmos no dinamismo profético da nova aliança, do anúncio do evangelho e na entrega incondicional da vida a Deus e aos outros. Somos chamados a ser testemunhas alegres e credíveis do amor feito misericórdia, junto dos nossos irmãos e irmãs, particularmente dos que habitam as fronteiras existenciais e geográficas deste mundo. O sacerdócio é graça, dom e mistério!

O Papa Francisco recomenda-nos a “misericórdia até aos pés”, no serviço contínuo do lava-pés, mistério de amor e humildade de Jesus, que lavou os pés aos seus, na ceia da despedida. Entremos no Coração eucarístico de Cristo, na oferta sacerdotal do Corpo entregue e do Sangue derramado, que é abaixamento, (quenosis), proximidade e misericórdia sem fim.

À semelhança do Bom Pastor

Queridos sacerdotes: é importante e necessário saber escutar o Espírito de Deus, que nos ungiu e consagrou para a missão! Ele suscita em nós um desejo sincero de renovação e maior atenção à realidade humana e social do tempo presente; Ele chama-nos a evangelizar no “hoje” de Deus, que Se revela na história concreta do nosso mundo.

Como nos recorda a Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, à semelhança do Bom Pastor, somos enviados a percorrer novas estradas de encontro e reencontro, em busca das “ovelhas perdidas” e de quantos vivem sem um horizonte de esperança. A missão confiada por Jesus à Igreja aponta no sentido de “ir e anunciar” a Boa Nova do projeto de Deus para a salvação da Humanidade. Ir ao encontro de todos, dar a conhecer e testemunhar Jesus Cristo e o Seu Evangelho. Ser testemunha da misericórdia do Pai!

O sacerdote seja, pois, “misericordioso como o Pai”, perante a fragilidade e sofrimento das pessoas. Também ele deve reconhecer-se frágil e pecador, carecido de misericórdia e de perdão, para saber acolher, com a sua própria experiência, os seus irmãos e irmãs, particularmente no sacramento da reconciliação, como pai misericordioso.

E o Papa Francisco bem nos recomenda: “abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs, privados da própria dignidade, e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade” (O Rosto da Misericórdia,15).

Neste espírito, somos convidados a refletir sobre as Obras de Misericórdia corporais e espirituais e pô-las em prática, numa especial atenção às pessoas nas diversas dimensões e carências da vida. Somos chamados a ser solidários e comprometidos perante novas situações e necessidades, como é o caso clamoroso de tantos cristãos perseguidos, muitas outras vítimas da violência, das guerras e do terrorismo, da multidão de migrantes e refugiados, que procuram acolhimento e apoio.

Espiritualidade presbiteral e fecundidade pastoral

Neste Ano da Misericórdia, o Santo Padre tem vindo a pedir aos sacerdotes a unidade e a comunhão eclesial, entre si e com o seu bispo. Uma pastoral feita de isolamento e individualismo não tem consistência: a fraternidade sacerdotal e a unidade são indispensáveis. Na verdade, quando o sacerdote se isola, enfraquece a sua a vida espiritual, diminui a fecundidade pastoral e é induzido à tristeza, ao desencanto e à solidão. A unidade do presbitério com o seu Bispo constitui, sem dúvida, um grande fator de dinamismo e eficácia.

 Ao concluir um recente discurso a formadores de sacerdotes, o Papa sublinhou a importância da união e da amizade, porque “os sacerdotes de hoje e de amanhã hão de ser homens espirituais e pastores misericordiosos, interiormente unificados pelo amor do Senhor e capacitados para difundir a alegria do Evangelho na simplicidade da vida”.

Como é importante para nós, sacerdotes, a celebração da Eucaristia, admirável memorial da entrega de Cristo ao Pai. A Eucaristia é o coração da nossa vida sacerdotal e da nossa história. Permite-nos viver a Páscoa e encontrar em Deus o centro e a plenitude da vida. A Eucaristia realiza a união com Cristo, com a Trindade e com os irmãos e irmãs. Se o pecado quebrou esta unidade, a misericórdia do Pai, com a redenção operada pelo Verbo de Deus e pelo seu Espírito, cura as feridas e faz renascer a comunhão.

Como são importantes, também, os tempos de oração pessoal e meditação da Palavra e os nossos retiros. É que, para sermos capazes de misericórdia, temos de escutar a Palavra de Deus, recuperar o valor do silêncio, acolher as interpelações que nos são dirigidas e, contemplando a misericórdia de Deus, assumi-la como estilo da nossa vida pessoal (cf. O Rosto da Misericórdia,13).

Como é importante, ainda, a nossa formação contínua, a nível teológico, espiritual e pastoral, para um eficiente diálogo com a ciência e a cultura do nosso tempo, para as sabermos interpretar e nos expressarmos com novas linguagens. Como lembrou o Papa no referido discurso, “oração, cultura e pastoral são pedras fundamentais de um único edifício: devem permanecer solidamente unidas para se sustentarem de maneira recíproca, bem cimentadas entre si”.

 E acrescenta: “A evangelização, hoje, parece estar chamada a percorrer novamente o caminho da simplicidade. Simplicidade de vida, que evita todas as formas de duplicidade e mundanismo. E simplicidade de linguagem, na proclamação do essencial da nossa fé: Cristo, morto e ressuscitado por nós” (Ao Pontifício Seminário Lombardo, em Roma, 25 de Janeiro 2016).

Reafirmar a nossa entrega

Caríssimos padres, neste dia de ação de graças, renovamos juntos as promessas sacerdotais e reafirmamos a certeza de que, confiados na graça do Senhor, continuaremos a dizer “Sim” a Cristo sacerdote e a trabalhar com alegria na Sua vinha. Como São Paulo, podemos dizer: “Eu sei em quem pus a minha confiança” (2Tim 1,12).

Como é bom recordar, em Eucaristia, o inesquecível dia da nossa Ordenação Sacerdotal! Repensar todo o rito, que tão bem define a natureza e a graça do ministério a que somos chamados, os compromissos que assumimos, a liberdade com que o fazemos, como penhor da alegria e felicidade, que havemos de sentir e testemunhar, ao longo de toda a nossa vida de padres.

Renovar, hoje, as promessas sacerdotais será escutar o apelo de Deus à fidelidade aos compromissos então alegremente assumidos. Será, afinal, apontar para uma vida de sacerdotes que exercem o ministério em plena liberdade, fiéis à própria identidade, em profunda comunhão com Cristo na Igreja, felizes na fraternidade e unidade do presbitério.

Gratidão e louvor

Caríssimos padres, nesta oportunidade quero deixar uma palavra de reconhecimento e muito apreço pela vida e ministério de cada um de vós, pela generosidade da vossa entrega e dedicação ao Povo de Deus, por todo o vosso empenho em viver o sacerdócio e testemunhar a alegria.

Rezemos uns pelos outros, solidários com todos nas alegrias e sofrimentos de cada um. Rezemos também pelos sacerdotes doentes e os falecidos neste último ano, que foram cinco (Pe. Tomé Sumares, Cón. João Conceição, Pe. Gabriel Sá, Pe. Isidro Rodrigues e Pe. Eduardo Nascimento).

E associemo-nos, desde já, em louvor e ação de graças, às Bodas de Ouro sacerdotais de quatro sacerdotes (Padres Francisco Avelino Andrade, António Ramos Silva, Manuel Jorge Neves, Eleutério Ornelas) e Bodas de Prata do Padre Rui Fernando Sousa. Alegramo-nos e bendizemos a Deus por todos, ao mesmo tempo que rezamos pelas vocações sacerdotais e outras de especial consagração e pelos nossos seminários.

Prece a Maria-Mãe

A terminar, contemplemos o rosto materno de Maria-Mãe. Confiemos-lhe os nossos problemas, insatisfações e dificuldades pastorais, escutemos o seu coração e pedidos de Mãe: Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,15). “A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus” (n.24).

Maria, Mãe dos sacerdotes, rogai por nós.

 

Funchal, 24 de Março 2016

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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