Homilia na Missa Crismal 2017

13-04-2017 10:35

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa Crismal, em Quinta-Feira Santa

Sé do Funchal, 16 de Abril de 2017

Viver o sacerdócio, testemunhar a alegria!

 

“O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Ele Me ungiu” (Lc 4,18). Caríssimos Padres: alegro-me convosco e a todos saúdo fraternalmente, por nos encontrarmos aqui, na Catedral da Diocese, neste Ano jubilar dos 500 anos da sua Dedicação, a concelebrar a Sagrada Eucaristia, num dia tão significativo para nós. É que Quinta-feira Santa é o dia da Eucaristia e do Sacerdócio, o dia por excelência do presbitério e de cada sacerdote. É a nossa festa!

Numa expressão clara de comunhão dos presbíteros com o seu Bispo e entre si, aqui estamos todos a participar, também, na Bênção dos santos óleos, que levareis para as vossas paróquias e lá permanecerão, ao longo de todo o ano, como elementos de referência à unidade da pastoral diocesana. Gerados na comunhão do presbitério e tomados na celebração dos sacramentos do batismo, confirmação e unção dos enfermos, assim se afirma, também, de forma simbólica, a nossa própria comunhão com todo o Povo de Deus desta Diocese.

Participação no Sacerdócio de Cristo

As leituras há pouco proclamadas ajudam-nos, como Padres, a interiorizar, à luz do mistério de Cristo e da nossa participação no Seu Sacerdócio, o sentido da unção e da missão a que faz referência o texto do Evangelho (Lc 4, 15-21), situando Jesus na perspetiva messiânica do profeta Isaías (Is 61,1-9), recordada na primeira leitura: “O Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres” (infelizes, atribulados, cativos, prisioneiros, aflitos) “e a levar-lhes o óleo da alegria”.

Como escreve S. Lucas, no início do Seu ministério Jesus foi a Nazaré, entrou na sinagoga a um sábado, fez a leitura daquele texto de Isaías e no fim exclamou: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21).

O Espírito é o princípio da consagração e da missão do Messias. Esse mesmo “Espírito do Senhor” está sobre a totalidade do Povo de Deus, que é constituído como povo “consagrado” a Deus e por Deus “enviado” para o anúncio do Evangelho que salva. Nos termos da segunda leitura (Apocalipse 1,5-8), é por Jesus Cristo, a Testemunha fiel, que nos vem a graça e a paz de Deus. Porque Ele nos ama, “pelo Seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de Sacerdotes para Deus, Seu Pai” (Ap 1,6).

Para além deste sacerdócio comum dos fiéis ou sacerdócio de todos os que foram batizados em Cristo, recorda-nos o Concílio Vaticano II, temos o Sacerdócio ministerial ou hierárquico, participação no Sacerdócio de Cristo, como Cabeça da Igreja (cf. LG 10).

É o que a Igreja canta no Prefácio desta Missa: “Pela unção do Espírito Santo constituiu o vosso Filho Unigénito Pontífice da nova e eterna aliança, e no vosso amor infinito quisestes perpetuar na Igreja o Seu único sacerdócio. Ele não só revestiu do sacerdócio real todo o Seu Povo Santo, mas também, de entre os seus irmãos, escolheu homens que, mediante a imposição das mãos, participam do Seu ministério sagrado.”

Tarefa pastoral prioritária

Queridos sacerdotes: saibamos escutar o Espírito de Deus, que nos ungiu e consagrou para a missão! Ele suscita em nós um desejo sincero de renovação e maior atenção à realidade humana e social do tempo presente; Ele chama-nos a evangelizar no “hoje” de Deus, que Se revela na história concreta do nosso mundo.

 

Como nos recorda o Papa Francisco, na Exortação “A Alegria do Evangelho”, à semelhança do Bom Pastor, somos enviados a percorrer novas estradas de encontro e reencontro, na periferia ou na fronteira, em busca das “ovelhas perdidas” e de quantos vivem sem um horizonte de esperança. A missão confiada por Jesus à Igreja aponta no sentido de “ir e anunciar” a Boa Nova do projeto de Deus para a salvação da Humanidade. Ir ao encontro de todos, dar a conhecer e testemunhar Jesus Cristo e o Seu Evangelho.

Neste contexto sentir-nos-emos todos interpelados e questionados sobre o modo como exercemos o ministério da Palavra, no mundo difícil que é o nosso, onde se apresenta como tarefa pastoral prioritária uma “nova evangelização”.

Há que anunciar a Palavra de Deus, tocar os corações e as consciências, com o desejo da verdade e a força do bem, em ordem à conversão pessoal, à vida nova em Cristo, Homem Novo! Hoje apela-se muito ao compromisso social, como dimensão e expressão da fé cristã; tal é importante e necessário, mas não será suficiente, esquecendo os valores sobrenaturais, que potenciam a nossa capacidade espiritual de intervenção e participação.

Há que reconhecer que só a conversão do homem e da mulher a novos valores de vida, aos valores evangélicos, poderá conduzir à solução de muitos problemas humanos, familiares e sociais. Renovados no íntimo do coração e da consciência, vivendo segundo o Espírito de Deus, seremos Homens Novos para uma Sociedade Nova!

Testemunhas da alegria e do amor  

O sacerdote é um Profeta da Esperança e da Alegria. A sua vocação profética leva-o a ser ele próprio “Boa Nova”, junto de cada irmão e irmã, particularmente junto dos que sofrem e buscam os caminhos do Senhor.

Configurados com Cristo Sacerdote, testemunhemos a beleza e a alegria de ser padre! Sejamos sempre testemunhas do amor de Cristo, tornando visíveis os gestos de acolhimento, compaixão e bondade do Filho de Deus, até à oferta da própria vida.

Para isso, é importante viver uma autêntica espiritualidade sacerdotal. À semelhança de Cristo Sacerdote, que realizava o Seu ministério em relação íntima com o Pai, o sacerdote encontrará, também, na intimidade profunda com Deus, a luz e a força para o seu caminho de entrega e serviço do Senhor, sobretudo, nos momentos de dificuldade, incompreensão e sofrimento.

Uma autêntica espiritualidade sacerdotal é o segredo da verdadeira felicidade e realização pessoal! Na Liturgia das Horas e noutras formas de oração, nos retiros, no sacramento da Penitência e muito especialmente na celebração do memorial da Ceia do Senhor, a Eucaristia, o sacerdote encontra uma perene fonte de Água Viva, que o torna apóstolo dedicado, criativo e inovador no serviço pastoral. A Eucaristia é verdadeiramente o coração da nossa vida sacerdotal e a fonte da nossa Alegria!  

Renovar as promessas sacerdotais

Caríssimos padres, neste dia de ação de graças, renovamos juntos as promessas sacerdotais e reafirmamos a certeza de que, confiados na graça do Senhor, continuaremos a dizer “Sim” a Cristo sacerdote e a trabalhar com alegria na Sua vinha. Como São Paulo, podemos dizer: “Eu sei em quem pus a minha confiança” (2Tim 1,12).

Como é bom recordar, em Eucaristia, aqui na nossa Catedral, em pleno Ano Jubilar da sua Dedicação, o inesquecível dia da nossa Ordenação Sacerdotal! Repensar todo o rito, que tão bem define a natureza e a graça do ministério a que somos chamados, os compromissos que assumimos, a liberdade com que o fazemos, como penhor da alegria e felicidade, que havemos de sentir e testemunhar, ao longo de toda a nossa vida de padres.

Renovar, hoje, as promessas sacerdotais será escutar o apelo de Deus à fidelidade aos compromissos então alegremente assumidos. Será acolher o apelo de São Paulo a Timóteo: “Recomendo-te que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos” (2Tim 1,6). Será deixar-se interpelar pela recomendação de São Pedro: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, velando por ele, não constrangidos mas de boa vontade, segundo Deus, não por ganância mas por dedicação, (…) tornando-vos modelos do rebanho” (1Pedro 5,2-3).

Renovar, hoje, as promessas da ordenação será, afinal, apontar para uma vida de sacerdotes que exercem o ministério em plena liberdade, fiéis à própria identidade, em profunda comunhão com Cristo na Igreja, felizes na fraternidade e unidade do presbitério. Somos, assim, reportados ao tema deste Ano Pastoral – Viver em Igreja a alegria de ser cristão, ajustando-o à nossa própria condição sacerdotal: viver, em presbitério, a alegria de ser padre!

Apreço e gratidão

Caríssimos padres, nesta oportunidade quero deixar uma palavra de reconhecimento e muito apreço pela vida e ministério de cada um de vós, pela generosidade da vossa entrega e dedicação ao Povo de Deus, por todo o vosso empenho em viver o sacerdócio e testemunhar a alegria.

Rezemos uns pelos outros, solidários com todos nas alegrias e sofrimentos de cada um. Rezemos também pelos sacerdotes doentes e os falecidos neste último ano, que foram cinco: Padre Anacleto Ferreira, Cónego. Ernesto Fernandes de Freitas, Cónego José Manuel de Freitas, Padre José Estêvão Domingos e Cónego António Rodrigues Rebola.

E associemo-nos, desde já, em louvor e ação de graças, às Bodas de Prata Sacerdotais de cinco Sacerdotes Diocesanos ordenados, um no dia 23 de Abril, o Pe. João Humberto de Vasconcelos Mendonça; e no dia 5 de Setembro, o Pe. José Afonso Nóbrega Rodrigues, Pe. José Luís Gouveia de Sousa, Cónego Manuel Martins e Cónego Victor dos Reis Franco Gomes. Alegramo-nos e bendizemos a Deus por todos, ao mesmo tempo que rezamos pelas vocações sacerdotais, pelos nossos Seminários e Pré Seminário, por todas as outras vocações de especial consagração, tendo já em vista os trabalhos preparatórios do Sínodo dos Bispos sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” (Outubro 2018).

Súplica a Maria

A Maria dirigimos, por fim, a nossa prece: Mãe de Cristo e Mãe dos Sacerdotes, Estrela da nova evangelização, guiai-nos, para que seguindo o exemplo do vosso amor e disponibilidade, saibamos ser pastores autênticos daqueles que nos estão confiados. Dai-nos força nas horas escuras da vida e nos momentos de maior cansaço do nosso ministério, para que possamos exercê-lo com fidelidade e amor!

Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!

 

Funchal, 16 de Abril de 2017

 

 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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