Homilia na Festa de São Tiago, padroeiro da Diocese do Funchal

01-05-2016 15:22

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

na Festa de S. Tiago Menor - Padroeiro  da Diocese

 

Sé do Funchal, 1 de Maio de 2016

 

Festa de S. Tiago, no Ano Santo da Misericórdia

 

Celebra a Diocese do Funchal, no 1º de Maio, a tradicional “Procissão do Voto” e a solene Eucaristia em honra do seu Padroeiro principal, S. Tiago Menor, “filho de Alfeu” (Mt 10,3). Os cristãos da Madeira, cheios de gratidão pelos favores divinos recebidos, todos os anos fazem memória da sua poderosa intercessão junto de Deus, aquando da terrível epidemia da peste, que assolou a Madeira no séc. XVI.

Vivendo, ainda, a proximidade e o espírito da celebração da Páscoa de Jesus, também nós rezamos: “Desça sobre a Igreja e sobre o mundo, como penhor de paz e de esperança, a luz da tua Páscoa esplendorosa” (Hino de Laudes).

É assim que as leituras hoje proclamadas (VI Domingo da Páscoa), apontando para a promessa, dom e ação do Espírito Santo, nos convidam a escutar e a pôr em prática a Palavra de Jesus, abrindo-nos à novidade suscitada e potenciada pelos valores do Evangelho, em cada tempo e lugar. “O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse […] Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,26).

O amor distintivo do cristão

O excerto da Carta de S. Tiago, na segunda leitura (Tg 1,19-27), fala-nos das exigências e autenticidade da vivência da fé, que nos coloca pertinentes desafios em relação às necessidades e problemas dos outros, sem aceção de pessoas. E noutro passo, ele interroga-nos: “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras” (Tg 2, 14)?

Certamente que uma fé sem obras está morta e não pode haver dicotomias ou separação entre a fé e a vida; a fé não poderá deixar de ter repercussões na família, na escola, no trabalho e na sociedade, em todos os nossos comportamentos. A vivência da fé abre horizontes novos de comunhão e solidariedade, porque se fundamenta em Deus, sendo o humanismo cristão essencial ao desenvolvimento integral e solidário do mundo. Como se lê no Concílio Vaticano II, “A mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o mundo, nem os leva a desinteressar-se da sorte dos seus semelhantes: impõe-lhes, ao contrário, uma obrigação ainda maior” (Gaudium et Spes, 34).

As obras da fé são as obras do amor-caridade. Assim nos lembra S. João, no discurso da Ceia da despedida, apresentando o amor de Cristo como referência para o dom do Mandamento Novo e a exigência de nos amarmos uns aos outros, como Ele nos mandou (cf. Jo 15, 12). De facto, as bases sólidas de uma sociedade e o verdadeiro exercício de cidadania constroem-se nos alicerces do Amor e da Verdade, fontes de sabedoria, solidariedade e comunhão fraterna entre os povos. “Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da Sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projeto” (Bento XVI, Caridade na Verdade, 1).

Ano Santo da Misericórdia

Tendo presentes as palavras do Papa Francisco, ao convocar o Ano Santo da Misericórdia, com o lema “Sede misericordiosos como o Pai”, e perante os numerosos desafios do mundo atual, somos chamados a ser misericordiosos uns para com os outros. E neste contexto do Ano Jubilar, a Igreja tem vindo a recordar-nos a importância fundamental de viver a dimensão do amor, particularmente para com os irmãos mais frágeis, aqueles que habitam as periferias existenciais, vivendo dramas humanos que só com apoio institucional e em solidariedade poderão superar-se.

Lembramos, naturalmente, os mais pobres e doentes, os perseguidos por causa da sua fé e os refugiados, para os quais o Santo Padre tem alertado os nossos corações e apelado às instâncias internacionais, para que assumam as suas próprias responsabilidades. Falam as suas palavras claras e corajosas, falam os gestos e os testemunhos, como a sua recente viagem à Ilha de Lesbos. E dirigindo-se aos católicos, ele afirma: “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”, pela prática das Obras de Misericórdia corporais e espirituais.

Memorial histórico

Celebramos o nosso Padroeiro, S. Tiago Menor, no contexto do Tempo Pascal. É no Mistério Pascal de Cristo que a atividade humana atinge a sua perfeição e a vida, a dor e a morte encontram a resposta da fé, a resposta para as grandes questões que se colocam na vida das pessoas.

Como dizia no início, no séc. XVI, a Ilha da Madeira foi devastada pela epidemia da peste, causando grande sofrimento e numerosos mortos entre a população. Não conseguindo debelar o terrível mal, que feria mortalmente as suas gentes, as autoridades religiosas e civis e toda a população suplicaram a Deus a suspirada ajuda. Numa atitude de fé e confiança e pela intercessão de S. Tiago Menor, solicitaram remédio para tão gravíssima situação e sentiram-se escutados.

Em gesto de gratidão, pela grande “mercê” alcançada, o Presidente da Câmara e os Vereadores prometeram no “Auto do Voto”, lavrado solenemente na Catedral do Funchal, no ano de 1521, homenagear anualmente o admirável Protetor que lhes havia caído em sorte.

Por isso aqui estamos, neste memorável e histórico dia de Acão de Graças, renovando o voto da nossa gratidão e solicitando novas bênçãos e a proteção de S. Tiago para a nossa cidade e para todo o bom povo da Madeira e Porto Santo.

Evangelho da Família

A Igreja celebra, no 1º de Maio, desde 1955, por feliz iniciativa do Papa Pio XII, a festa de S. José operário. Hoje é também o Dia da Mãe. Feliz coincidência para lembrar a Sagrada Família de Nazaré e as famílias de cada um de nós. “A encarnação do Verbo numa família humana, em Nazaré, comove com a sua novidade o mundo”, diz-nos a recente Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” sobre a família.

A Igreja, procurando ser fiel a Deus e à Humanidade, abraça todas as famílias com a compreensão e ternura do Pai de Misericórdia. E perante o envelhecimento da nossa sociedade, reafirma constantemente a importância dos filhos e alerta para a defesa da vida humana, desde a conceção até à morte natural. O aborto e a eutanásia continuam a ser graves ameaças para a família em todo o mundo (Cf. A Alegria do Amor”, 48).

Somos interpelados, pois, por uma realidade social que preocupa e a todos afeta: qual é, afinal, o futuro da sociedade e da humanidade, sem crianças e sem juventude, nomeadamente na cultura e civilização europeia atual? Na verdade, apesar de todas as dificuldades com que se depara, a família não pode deixar de ser uma comunidade aberta ao amor e à vida.

A Mãe, expressão da ternura de Deus

Neste dia da Mãe, recordamos com profundo amor filial e cheios de gratidão, Maria-Mãe e todas as nossas mães: as que se encontram ainda connosco e as que já partiram para a casa do Pai. Na verdade, a Mãe ocupa um lugar de relevante presença e ternura na família. Peçamos ao Senhor da Vida por todas elas. Assim escreve o Papa Francisco: “Uma sociedade sem mães seria uma sociedade desumana, porque as mães sabem testemunhar sempre mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. […] Queridas mães, obrigado por aquilo que sois na família e pelo que dais à Igreja e ao Mundo” (A Alegria do Amor, 174).

S. José Operário

Também hoje, 1 de Maio, dia do trabalhador, a Igreja universal faz memória de São José Operário e alerta a nossa atenção para o mundo do trabalho e dos trabalhadores, nas suas potencialidades e problemas, para que o trabalho seja, efetivamente, uma forma de realização humana e de serviço à comunidade, participação na obra criadora de Deus. Que haja cada vez melhores condições que respeitem a dignidade e os direitos humanos, nas diversas áreas da atividade dos homens e das mulheres!

Recordo os trabalhadores da nossa terra e de todo o mundo, particularmente os que vivem sem as condições mínimas, os que vivem em regime de trabalho precário, os desempregados, os que sofreram acidentes de trabalho e ficaram diminuídos nas suas capacidades; enfim, todos os que carecem de perspetivas para o trabalho que realizam ou procuram, de ânimo e coragem para vencerem as lutas e dificuldades da vida.

A terminar, expresso a minha alegria por estar convosco, aqui nesta festa do Padroeiro São Tiago, e dirijo a Deus a minha súplica, para que os católicos da nossa Diocese, vivendo e testemunhando a sua fé, sejam hoje, como ao longo dos 500 anos da sua história evangelizadora, promotores da alegria e da esperança, da caridade e da justiça, da prosperidade e da paz. Que São Tiago proteja e abençoe a nossa Diocese e a nossa cidade!

Funchal, 1 de Maio de 2016

 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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