Homilia na Celebração do aniversário da Dedicação da Catedral

28-10-2016 18:00

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

 na Celebração do aniversário da  Dedicação da Catedral

 

Sé do Funchal, 18 de Outubro de 2016

 

A Catedral, Igreja Mãe da Diocese!

 

É com imensa alegria que celebramos a solenidade do aniversário da Dedicação desta Sé, a Igreja Mãe de Diocese, que teve lugar a 18 de Outubro de 1517, presidida pelo Bispo D. Duarte, como Delegado do Bispo titular, D. Diogo Pinheiro. Faz hoje, portanto, 499 anos.

Ao celebrarmos, assim, a Dedicação da nossa Catedral, queremos que a memória deste acontecimento, fundador da maior expressão e vivência da fé aqui neste lugar, se manifeste num gesto de gratidão e de ação de graças a Deus e a Jesus Cristo, pedra angular da Igreja, como ouvimos no Evangelho.

A Catedral é um sinal, no meio da cidade, de que Deus habita com os homens e se faz próximo, pela sua misericórdia e compaixão. É um sinal vivo da fidelidade de Jesus Cristo que alimenta, com a sua palavra e com o seu corpo e sangue, os homens e mulheres de cada geração.

O tempo que passa é habitado e, de certo modo, sustentado pela eternidade do amor de Deus, que nos reúne numa comunidade de filhos, para nos comunicar o dom inestimável da Páscoa do seu Filho, que nos ressuscita para a vida eterna.

O dom e a alegria de ser Igreja

Bem assente na terra com alicerces seculares, a Catedral é, inseparavelmente, obra de Deus, tabernáculo de Jesus Cristo e edificação humana de muitos séculos. É aqui que a nossa Igreja diocesana se reúne nas celebrações centrais da liturgia para louvar a Deus e empenhar-se no serviço do Evangelho. É aqui que cada um de nós encontra a paz de Cristo e percebe que Ele derrama sobre as nossas feridas, como bom samaritano, o «óleo da consolação e o vinho da esperança». É aqui que recebemos o dom da alegria de ser Igreja, dom do Espírito Santo que germina em nós, ainda que seja pesada a cruz da vida.

A marca da fé recebida e transmitida ao longo destes 499 anos fica gravada na nossa memória e na nossa gratidão. Se hoje somos cristãos e vivemos como Igreja, se somos pedras vivas do templo do Senhor, é porque a fé assenta sempre sobre um edifício espiritual em permanente construção. Tudo aquilo que os cristãos, que nos precederam, viveram na autenticidade da sua fé, permanece como a nossa herança.

Esta herança que é, afinal, o Evangelho vivido em cada época, deve lançar-nos para a frente, sem temor, porque o Evangelho é sempre a resposta nova às aspirações mais profundas que habitam o coração humano em cada tempo. «Com a sua própria presença no meio de nós – dizia S. Ireneu – Cristo trouxe-nos toda a novidade».

Uma promessa de plenitude

A visão de Ezequiel, na primeira leitura de hoje, diz-nos que o templo de Jerusalém é a origem permanente duma fonte de água capaz de irrigar, com um novo dinamismo de vida, não só a terra de Israel mas toda a criação. A água jorra do limiar da porta do templo voltada para o oriente. Há aqui uma referência ao plano criador de Deus pois, segundo o livro da Génesis, no princípio, um «manancial subia da terra e regava toda a superfície do solo» (Gen 2,6).

Na visão de Ezequiel, a água corre para o Oriente e fertiliza nas suas margens todas as árvores e plantas que aí se encontram. A abundância desta água é tal que nem o profeta podia atravessar a torrente. A vida do mundo renova-se sob a ação das águas que correm do templo. Todo o ser que nelas vive ou se encontra junto delas ganha novo alento.

A visão de Ezequiel é ao mesmo tempo uma promessa de plenitude. Não se trata de voltar ao momento inicial da criação, mas de encaminhar-se para a finalidade a que Deus a destina. Ele mesmo é o rio que irriga a cidade por Ele fundada. Ele mesmo será, para todo o ser vivo, a fonte de água que dá novo alento e faz produzir frutos de vida eterna. Se a água é tão importante para o homem, mais essencial é ainda a vida que Deus lhe comunica, para que seja de verdade à sua imagem e semelhança.

Saciar as sedes do nosso tempo

A visão de Ezequiel nasce da fidelidade de Deus à sua Aliança, fecunda o presente, mas aponta para o futuro da sua realização. O templo da nova Aliança já não é feito de pedra como o templo de Jerusalém. É o próprio Filho de Deus, revestido da nossa humanidade, que é para nós a fonte de água que jorra para a vida eterna. «Da água que eu te der – diz Jesus à samaritana – nunca mais terás sede» (Jo 4,14).

Esta fonte de água viva é a que sai do Seu lado aberto na cruz. Por isso, só em Jesus se realizam de verdade as palavras de Ezequiel. O centro da vida da Igreja é a sua Páscoa e a Eucaristia que a torna sacramentalmente presente em cada tempo. Esta fonte continua a saciar as sedes do nosso tempo: sede de paz, sede de verdadeira unidade, sede de misericórdia e de perdão, sede de felicidade e de vida eterna.

A Catedral há de ser hoje, como o foi ao longo dos séculos, o espaço de culto, de oração e de interioridade, onde bate o coração da Igreja, que se sacia na fonte de água viva que é o seu Senhor.

Missão de edificar a Igreja

Quando se aproxima o tempo da sua Páscoa, como ouvimos no Evangelho, Jesus procura saber o que dizem dele os seus contemporâneos. No entanto, a pergunta decisiva é dirigida aos seus discípulos: «E vós, quem dizeis que eu sou?». Os que estão com Ele e decidiram segui-l’O são agora, de certo modo, postos à prova com esta pergunta.

 É mais fácil saber o que os outros dizem do Filho do Homem, do que responder com um testemunho personalizado. Contudo, é a partir desta frontalidade, desta interpelação e deste relacionamento pessoal que a fé entra na vida. Aqui, a resposta deve ser única, porque é única e direta a pergunta de Jesus. Pedro, com palavras que ele mesmo vai buscar à tradição do seu povo, responde com a convicção do discípulo: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo».

 O Apóstolo não tinha ainda a completa consciência do alcance destas palavras. Elas soavam como uma profecia, que a Páscoa ia realizar plenamente. Jesus dava a Pedro a missão de edificar a Igreja sobre a pedra angular que é Ele mesmo, missão que continua íntegra até ao fim dos tempos. Pedro é sinal, em toda a Igreja, da fidelidade à fé em Jesus, e o ministério de reconciliação, que lhe é confiado, é dom de Deus que se revela e atua a partir desta fidelidade.

A profissão da fé, o anúncio da reconciliação e da misericórdia de Deus não se podem separar. A Catedral, igreja na qual o Bispo diocesano tem a sua cátedra, exprime este ministério de guardar a fé e anunciá-la na reconciliação do Evangelho.

Nos quinhentos anos da Catedral

A profissão da fé em Jesus, como o faz S. Pedro, garante a autenticidade da missão. Pela frente, temos hoje esta missão de conhecer melhor a fé, para vivê-la como dom de perdão e de paz, e para que seja mais consciente e adulta. Para ser transmitido, o dom da fé precisa de ser assimilado pessoalmente, entrar e transformar as fibras mais profundas do nosso pensamento e ação. É daqui que nos vem a experiência mais profunda da comunhão e da alegria de ser Igreja.

 A Dedicação da Catedral, neste dia que marca o limiar dos seus quinhentos anos de existência, lembra-nos que o testemunho permanente da Igreja, que é o de cada um de nós, é o de ser como uma Mãe, anunciando a misericórdia de Deus, gerando Cristo para o mundo, vivendo a sua Páscoa, acolhendo e purificando, em nome do Evangelho, as mais profundas aspirações humanas.

Dando, desde já, graças a Deus pelos quinhentos anos da nossa Catedral, queremos que as atividades e celebrações jubilares, a realizar ao longo deste ano, sejam mais do que a comemoração de uma data e constituam verdadeiras oportunidades de reflexão e renovação do nosso ser cristão e da ação pastoral diocesana.

Queremos, com efeito, uma Igreja viva, corresponsável na missão e dinamismo de nova evangelização, criadora de projetos e novas formas de compromisso com as pessoas e sociedade do nosso tempo, procurando responder melhor aos desafios com que nos deparamos no campo da fé e da cultura, da ação educativa e participação social.

O Ano Pastoral de 2016/2017 será, assim, um largo tempo em que somos chamados, muito especialmente, a refletir sobre a identidade e missão da Igreja; a consciencializar e reavivar a graça do nosso batismo; a reconhecer o papel específico do Bispo e da Catedral na comunhão da Igreja Diocesana e com a Igreja Universal; a saborear a alegria de ser cristão na família, na Igreja e na Sociedade. Daí o tema escolhido para o Ano Jubilar da Dedicação da nossa Catedral: “Viver, em Igreja, a alegria de ser cristão”. Assim seja!

 

Funchal, 18 de Outubro de 2016

 

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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