Homilia do Bispo do Funchal no dia da Região

01-07-2016 06:11

Homilia do Bispo do Funchal no dia da Região 

Homilia do Bispo do Funchal no dia da Região

 

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa do Dia da Região Autónoma da Madeira

e das Comunidades Madeirenses

 

Catedral do Funchal, 1 de Julho de 2016 

 

Celebrar o Dia da Região, nos 40 anos da Autonomia

 

Neste Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, em que celebramos os 40 anos da Autonomia, é com grande alegria que vos saúdo a todos os presentes, aqui, na Sé do Funchal, e quantos, por terras de emigração, se encontram unidos a nós, no abraço solidário da fé e da amizade. Em comunhão de sentimentos, damos graças ao Senhor pelas maravilhas, que Ele tem realizado a favor do nosso povo, e pedimos as maiores bênçãos para todos aqueles que mais carecem de ajuda.

Conscientes desta hora histórica, num tempo de grandes desafios, fazemos memória de um povo crente, aventureiro, determinado e trabalhador, que venceu dificuldades e abriu novos horizontes de solidariedade e desenvolvimento, à procura de melhores condições de vida para as famílias, sem esquecer as suas raízes e o amor pela Ilha que os viu nascer.

O Dia das Comunidades Madeirenses é, assim, um dia que recorda o nosso passado e celebra o que hoje somos, com gratidão e respeito por todos aqueles que o construíram. Um dia que coloca diante de nós o presente, sem ilusões e sem medos, com as suas dúvidas e as suas esperanças, um presente que nos interpela a uma vontade forte de construir um futuro cada vez mais digno de homens e mulheres livres, que somos chamados a ser.

Caminhos de esperança e amor 

Os textos bíblicos que acabámos de escutar constituem um forte apelo à esperança da fé e ao amor fraterno, numa mensagem que bem pode tomar-se como resposta cristã aos problemas da atualidade e às exigências de uma sociedade mais humana, mais justa e mais evangélica.

Como é bela e significativa a palavra de S. João, escutada na primeira leitura, em que ele próprio nos apresenta, em linguagem simbólica, o fruto do mistério redentor da vida, morte e ressurreição de Cristo: "Vi um novo céu e uma nova terra" (Ap 21,1).

 

Tudo aponta, nesta visão, para uma presença muito viva de Deus no mundo, fazendo nele a Sua morada, em ordem à concretização plena da missão do Seu Filho Jesus, enviado para libertar a Humanidade do pecado e de toda a espécie de mal. A nova Jerusalém, "que descia do céu", é figura da Igreja, que há de constituir e aparecer como verdadeira "morada de Deus com os homens". É, pois, missão da Igreja, que os seus membros não podem deixar de assumir e empreender, o esforço constante de "renovar todas as coisas" em Cristo (21,5), de transformar este mundo dos homens com os valores evangélicos do Reino. 

Desta mensagem bíblica, afirmação da presença e ação amorosa de Deus no mundo, brotam assim perspetivas de fé e caminhos de esperança, que nos ajudam a viver e assumir atitudes cristãs, no contexto social do nosso tempo. 

Consciente do tesouro da fé e face a uma sociedade secularizada, em que se esbatem as referências a Deus, o Papa Francisco dizia-nos: "Quantas pobrezas morais e materiais se ficam a dever à rejeição de Deus, colocando no seu lugar tantos ídolos". 

 

E na sua notável encíclica "Laudato si (louvado sejas) sobre o cuidado da casa comum", publicada há cerca de um ano, alertando para as grandes questões ecológicas do nosso tempo, escreve o Santo Padre que "os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem" (n.4). Há, pois, que promover "uma economia sustentável, acessível e segura ao serviço do desenvolvimento e solidariedade humanas".

Ano Santo da Misericórdia 

 A chave de leitura do texto do Evangelho de S. João (15, 9-17) é a expressão "permanecer no amor", porque a caridade é, na verdade, a fonte inspiradora da solicitude pastoral, mas é, também, "o maior mandamento social", conforme refere a Doutrina Social da Igreja. De facto, só o Amor de Cristo, na entrega da vida que fez de Si mesmo, pode iluminar, transformar e configurar integralmente o homem e a mulher, e conduzi-los à mais alta dignidade e plenitude humanas. "É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que dar a vida pelos amigos"- disse Jesus (Jo 15,12-13).

Dizer que a caridade é o "maior mandamento social" não significa reduzir o "amor-serviço" fraterno à sua dimensão assistencial, que não poderá deixar de existir, certamente, perante carências específicas, que reclamam ajudas personalizadas e muito concretas. Importa, sem dúvida, estar atento, reconhecer e descobrir as verdadeiras necessidades, vencer a indiferença, abrir o coração e agir, procurando respostas e soluções para os problemas que as pessoas e as famílias, por si sós, não podem resolver.

Como nos pede o Papa Francisco, na Bula do Ano Santo da Misericórdia, que estamos a celebrar, "abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãos privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda" (O Rosto da Misericórdia, 15).

Neste momento, no entanto, em que subsistem muitas das consequências da crise dos últimos anos, importa sobretudo congregar esforços e vontades, na concretização de políticas concertadas de desenvolvimento integral e de participação responsável e solidária de todos os cidadãos e instituições. É uma ação a realizar, em diálogo e convergência, entre as instituições públicas e privadas, de acordo com o princípio geral da autonomia e cooperação, da subsidiariedade que entre elas deve existir. 

Ao serviço do homem integral

Com grande preocupação, dizia o nosso Papa Francisco que "a crise é demasiado dura para as famílias e para os jovens". Um gravíssimo problema que não é somente de ordem económica, mas tem profundas raízes éticas e antropológicas, com repercussões políticas e culturais graves. E sobre o modo de entender a solidariedade como resposta às necessidades dos mais frágeis e carenciados, o Santo Padre afirma que não se pode tratar de uma simples esmola, mas de "restituir-lhes a sua merecida cidadania social". 

É uma questão de cidadania, repito, que a todos obriga e é bom recordar. Quanto a nós cristãos, em particular, estamos obrigados, em consciência e por exigência da própria fé, a ser cidadãos edificadores de um mundo novo, conhecendo os nossos deveres, direitos e responsabilidades sociais, e participando com generoso empenho no desenvolvimento de uma sociedade nova, ao serviço do Homem integral.

Neste sentido, celebrar o Dia da Região é também fazer memória de homens e mulheres notáveis na santidade, na vida social, no campo da educação, na literatura, nas artes e na ciência, que muito contribuíram para enriquecer o nosso património insular, tantos que se têm distinguido entre nós, e já lembrados em diversas ocasiões.

 

É, pois, com grande alegria e gratidão que evocamos todas as famílias religiosas, sacerdotes e leigos, que, desde a origem do povoamento até aos nossos dias, marcaram de forma extraordinária, em serviço fraterno e eclesial, a vida dos madeirenses, como bem o comprovámos nas celebrações jubilares dos 500 anos da criação da Diocese, em particular nos trabalhos do belo e valioso Congresso Internacional sobre a "Diocese do Funchal - Primeira Diocese Global", em Setembro de 2014. 

 

 

Aos nossos emigrantes 

 

Seja-me permitida, neste momento, mais uma palavra de saudação e de estímulo para os nossos emigrantes que em tantos países vivem e trabalham, dando também um precioso testemunho da sua fé cristã e assumindo, sem vergonha e até com entusiasmo, as tradições religiosas que receberam desde o berço e que, por sua vez, se esforçam por transmitir a seus filhos e netos. Com alegria verificamos que o fator religioso continua a ser um elo forte familiar e de união às ilhas de origem.

 

Por todos rezamos e a todos nos queremos associar, recordando de modo especial a comunidade portuguesa da Venezuela, perante as dificuldades que atingem, atualmente, tantas das suas famílias. Que todos possam contar com as nossas orações e gestos de ajuda fraterna.

 

À Senhora do Monte 

 

Que a Senhora do Monte, nossa Padroeira, nos mantenha abertos à novidade de Deus, atentos à Sua Palavra e às necessidades dos nossos irmãos e irmãs: cristãos ativos e participativos na vida da Igreja e da sociedade, vivendo e testemunhando os valores do Evangelho. 

 

Para cada um de nós, celebrar o Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, na presente comemoração dos 40 anos da Autonomia, será, assim, sentir-se chamado a dar o seu melhor, em todos os campos da vida eclesial, social, económica, política e cultural, para que a sociedade de hoje e do amanhã seja a expressão do trabalho, dedicação e generosidade de todos.

 

 

Catedral do Funchal, 1 de Julho de 2016 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

 

 

Voltar

Contactos

Diocese do Funchal
Largo Visconde Ribeiro Real, 49
FUNCHAL
9001-801

© 2015 Todos os direitos reservados.

Diocese do Funchal - Gabinete de Informação