Dia do Clero

19-05-2016 22:52

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

Dia Diocesano do Clero, 19 de Maio 2016

 

Sacerdotes, testemunhas da misericórdia

Neste Dia Diocesano do Clero do Funchal, quero agradecer com todo o nosso presbitério, a Cristo Sumo e Eterno Sacerdote do Pai, o admirável dom do Sacramento da Ordem. Com o Espírito Santo, que nos consagrou e ungiu com o óleo da alegria, e em comunhão com cada um de vós, queridos sacerdotes e diáconos, faço memória agradecida da minha entrada nesta diocese, na solenidade da Ascensão do Senhor.

Bendigo a Deus e a Maria-Mãe, por todas as graças recebidas ao longo destes nove anos ao serviço desta Igreja local. E agradeço, de todo o coração, a vossa amizade e generosa colaboração sacerdotal. Por tantas dádivas recebidas e bênçãos no serviço pastoral, com o salmista, cantamos jubilosamente: “Cantai hinos a Deus, cantai, cantai hinos ao nosso Rei, cantai” (Sl 46).

Chamados por Cristo, enviados em missão

A Palavra do Senhor, toda ela impregnada com a força do Espírito, convoca-nos para a intimidade com Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Por Ele somos enviados em missão, no ministério sacerdotal, feito de profecia, envio e ardor missionário, numa “Igreja em saída”.

Lucas, o evangelista da infância, mas também do Espírito Santo, relata-nos a experiência missionária da sua comunidade, ao redor de Cristo glorioso. O Apóstolo quer testemunhar que a pregação da Igreja está fundamentada em Jesus e dinamizada pelo seu Espírito, apesar das inevitáveis incompreensões e resistências. “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas…” (Act,8). As testemunhas não se limitarão a recordar “doces lembranças do Senhor”, mas a seguir Jesus com determinação e alegria, inclusive, a participar como Ele e com Ele, no seu mistério Pascal de morte e ressurreição.

 

Misericordiosos como o Pai

Neste Ano Jubilar da Misericórdia, o nosso encontro reveste-se de particular significado e comunhão eclesial. O Senhor que nos chamou e nos consagrou, pede-nos para sermos testemunhas vivas do seu Amor eterno e Luz da sua misericórdia sem fim, junto dos mais frágeis, dos pobres, nas periferias existenciais do nosso mundo. “Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (O Rosto da Misericórdia,1). Que a nossa estrada percorrida em generosa entrega, sacrifício e jubilosa esperança, fique marcada com os raios de luz de misericórdia, que perdoa, ama e oferece a vida como Jesus.

Fraternidade sacerdotal

S. Paulo, na carta aos Romanos, que escutámos, lembra-nos o fundamento vital, imprescindível, em qualquer comunidade reunida em nome do Senhor. “Tende entre vós os mesmos sentimentos”. Para nós, sacerdotes e diáconos, esta palavra do Senhor é de uma grande importância e exigência.

À luz da Palavra, que escutamos, contemplemos a nossa vida e as nossas relações humanas em ordem à fraternidade do nosso presbitério. Sou um homem de fé, que acredita no Espírito Santo, na força do testemunho e do amor fraterno? Coloco os dons e carismas que o Senhor me deu ao serviço dos outros? “Que a vossa caridade seja sincera, aborrecendo o mal e aderindo ao bem. Amai-vos uns aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns aos outros” (Rom 12,10).

 S. Paulo convida-nos a ser conscientes da hora histórica concreta em que vivemos. Apesar dos sofrimentos e conflitos, não podemos esquecer a beleza e a grandeza de Deus, presente no meio do seu povo, que se manifesta no coração da humanidade e na história concreta de cada pessoa. Como dizia Santo Agostinho, “o sacerdócio é um serviço de amor” (amoris officium). A nossa total configuração com Cristo, pelo sacramento da Ordem, há de conduzir o nosso sacerdócio a uma vida de feliz entrega a Cristo e aos irmãos. E que o nosso testemunho de vida sacerdotal possa contagiar os jovens para o seguimento de Cristo Sacerdote.

 

Abençoados na paz e na alegria

Lucas é o único evangelista a falar da Ascensão do Senhor. Graças ao encontro com o Ressuscitado, os discípulos entram na plenitude da mensagem pascal. O júbilo dos Apóstolos é evidente, apesar de Jesus ter subido aos céus, que se traduz em louvor e adoração. Na verdade, a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico, presente no evangelho de Lucas, sobretudo no relato da infância e agora com uma despedida marcada com a força da bênção de Jesus: “Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os!” (Lc24,51). Com sabeis, Betânia é símbolo do acolhimento e de amizade fraterna. Graças à força do Espírito Santo, Jesus continuará presente na comunidade. A missão de Jesus é a missão da Igreja, é a nossa missão!

No contexto do mundo atual, face à transformação da sociedade, são inúmeras as dificuldades e desafios que se colocam no serviço pastoral. Diminuição numérica dos cristãos que frequentam a Igreja; famílias desestruturadas; dificuldades e sofrimentos inerentes ao ministério, quer na fidelidade quer na doação eclesial, etc. Como transmitir a alegria do evangelho e ministrar os sacramentos, num mundo secularizado?

A situação de outrora é também a dos nossos tempos conturbados, face à violência, indiferença religiosa, à ausência de valores humanos e ao secularismo. Apesar das dificuldades e sofrimentos, o sacerdote, o diácono, não pode ignorar a ação misteriosa de Deus no mundo. Tomas Halik, sacerdote, professor e filósofo, ele mesmo perseguido e ordenado na clandestinidade, diz-nos, com grande profundidade de pensamento e clareza de visão: “O Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, é a realidade da realidade”.  (O meu Deus é um Deus ferido”, pág. 80).

Unidade e caridade pastoral

Mas para viver uma autêntica vida de entrega, o sacerdote e o diácono têm de ser pessoas de oração, optando por uma espiritualidade centrada na Eucaristia. Só assim nos tornaremos verdadeiras testemunhas luminosas da misericórdia do Pai e de unidade sacerdotal. “Participando na missão de Cristo, Cabeça e Pastor, e em comunhão filial com o bispo, esforçai-vos por unir os fiéis numa única família, para conduzi-los a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo, tendo sempre diante de vós o exemplo do Bom Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir, não para ficar nos seus confortos, mas para sair, e buscar e salvar o que estava perdido,” disse o Papa Francisco, na recente ordenação de jovens sacerdotes a que presidiu, em Roma.

Nos nossos dias, chegam notícias dolorosas de sacerdotes e numerosos cristãos que sofrem até ao sacrifício da vida, por causa das perseguições religiosas. Recordo a grande filósofa e mística, Etty Híllesum, holandesa convertida, que faleceu em 1943 no campo de concentração de Auschwitz. Apesar das torturas do campo, da doença e dos sofrimentos de tantos inocentes mortos, Etty venceu o ódio e optou pelo amor. Deixou-nos um testemunho admirável de coragem e de amor misericordioso. A sua fé em Deus era extraordinária: “A minha vida é uma sucessão de milagres interiores […] A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto Contigo, meu Deus,  um grande diálogo”(Diário 1941-1943). Há sempre razões para viver a esperança e a vitória definitiva do amor.

Mãe dos sacerdotes

Os discípulos, em união com a Mãe de Jesus, permaneceram em oração, no Cenáculo, à espera do Espírito Santo.

Pedimos a Nossa senhora, Rainha do Clero, a bênção e proteção maternal para os nossos sacerdotes, especialmente para os que se encontram doentes e os que estão a passar por maiores dificuldades. 

Que a Mãe dos sacerdotes lhes dê a sua mão e os livre dos graves perigos que todos os dias espreitam a sua vida e ministério.

Nossa Senhora, Rainha do Clero, rogai por nós.

 

Câmara de Lobos, 19 de Maio de 2016

†António Carrilho, Bispo do Funchal

 

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