Dia 20

21-01-2016 08:42

No terceiro e último dia das jornadas de atualização deste ano para leigos e religiosos da diocese do Funchal estiveram em análise: “Os Padres da Igreja e a Misericórdia”;  e  a “Ação das Misericórdias ao longo da História da Madeira”.  O primeiro tema foi apresentado pelo cónego doutor Vítor dos Reis, pároco da Sé, que na sua exposição, através de vários pontos, se referiu a algumas questões colocadas ao longo dos séculos, apoiado por excertos de textos de interpretação Patrística. Para começar, disse que as características que definem os Padres da Igreja têm por base: “a verdade da sua doutrina, a santidade de vida, a aprovação pela Igreja e a antiguidade”.

Na Igreja primitiva, os primeiros cristãos foram confrontados com sérios “desafios” a propósito da interpretação dos Antigo e Novo Testamento, e em relação ao “mundo antigo não cristão”. Foi o caso, por exemplo, da questão colocada por Marcião sobre o “Deus revelado no Antigo Testamento” que “não podia ser o mesmo de Jesus Cristo”; o do Antigo “era um Deus justo, poderoso…”, e não podia ser “o do Evangelho, pacífico e misericordioso”. Esta posição foi então contrariada por dois importantes Padres da Igreja: Santo Ireneu e Tertuliano, para quem “Deus é um só, é único”, defendendo-se assim a “unidade das Escrituras”, acentuou o cónego Vítor dos Reis.

Outro “desafio” teve a ver com a “questão penitencial”, em que o “perdão” era garantido no início apenas pelo sacramento do Batismo, mas que, verificando-se depois a existência de “pecados graves”, era preciso “não excluir da fé” os pecadores, mas proporcionar-lhes uma “tábua de salvação” através da penitência; Assim,  foi defendida pelos Padres da Igreja  a “reconciliação”  que passou a ser considerada possível. O mesmo acontecia para os “cristãos” que “renegaram a fé” por causa da “perseguição” a que foram sujeitos nos primeiros tempos.

Outra questão que os Padres da Igreja tiveram de dar resposta foi como o “sofrimento de Jesus pode também afirmar a misericórdia de Deus. Neste aspeto foi citada uma afirmação de São Bernardo: “Deus não pode sofrer, mas pode compadecer”.

A misericórdia divina, por outro lado, está bem expressa, por exemplo, na “compaixão de Cristo com os pecadores (Zaqueu, mulher adúltera e outros)”; nas “parábolas da misericórdia”, tratadas profundamente pela Patrística, como o “Bom Samaritano e o Filho Pródigo”…  Assim, “Cristo é o Bom Samaritano que se abeira de todo o homem ferido e que o conduz a uma nova família, a Igreja”, qual “hospedaria, acolhimento, “tenda de campanha”, como lhe chamou o Papa Francisco”, lembrou a propósito o cónego Vítor dos Reis. Quanto ao “Filho Pródigo”, a interpretação  é a de que “o perdão do Pai é antecipado, antes mesmo do filho confessar o seu pecado”. Neste contexto se destaca ainda a “misericórdia pascal”.

Outro tema em evidência na conferência do cónego Vítor dos Reis foi ‘a “misericórdia” e a “justiça”, que “não podem existir separadas”. Para os Padres da Igreja, nomeadamente Santo Ambrósio, a questão é esta: “o que é a justiça de Deus senão a Sua misericórdia? Jesus é neste mundo a justiça de Deus em pessoa”. De resto, “as obras de misericórdia são encontros com Cristo nos outros”; existe uma unidade, “um só corpo, Cristo é a cabeça e nós os seus membros; e a oração do Pai Nosso é a imagem plena da verdadeira misericórdia. Para Santo Agostinho, indo à raiz da palavra, a misericórdia significa “ter o coração junto dos pobres e dos infelizes”, lembrou ainda o cónego Vítor dos Reis.

 

A última conferência destas jornadas foi proferida pelo Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Funchal. Na oportunidade, o Dr. Jorge Spínola relatou em detalhe as origens,  as competências, atribuições, a história em geral das Misericórdias que nasceram no nosso país no século XV, por intermédio da rainha D. Leonor, casada com o rei D. João II e irmã do rei D. Manuel I, numa época de grandes acontecimentos: os Descobrimentos e a avalanche de pobres, cativos e doentes que demandaram a cidade, por causa das guerras e outros sofrimentos; e que teve o mérito de criar a “maior rede social de que há memória”, substituindo os “grupos informais” por “apoios institucionalizados, organizados” no tocante à caridade e às “obras de misericórdia”.

A primeira Misericórdia foi fundada em Lisboa em 1498 e a ela somaram-se outras centenas por todo o mundo então descoberto pelos portugueses. A do Funchal nasceu em 1508, junto à igreja de Nossa Senhora do Calhau (zona velha da cidade) e ao longo da sua história assumiu-se como pioneira e protagonista a favor dos mais necessitados, através da assistência em muitas áreas, desde a garantir a saúde hospitalar, passando pelos lares de terceira idade, centros de dia e outras valências na atualidade, explicou em pormenor o dr. Jorge Spínola.

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