Homilia nos 500 Anos da Dedicação da Sé

18-10-2017

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

nos 500 anos da Dedicação da Sé

Funchal, 18 de Outubro 2017


Viver a missão, em santidade e comunhão

Há 500 anos, neste dia 18 de Outubro, D. Duarte, bispo de Dume, consagrava esta Igreja Catedral e o seu altar-mor «em honra da Santíssima Virgem», colocando nele as relíquias dos santos Mártires. O ritual da Dedicação duma Igreja é sempre uma das acções litúrgicas mais solenes e mais ricas de significado. Consagrando pelos seus ritos um edifício material feito pela mão humana, a Dedicação exprime o próprio mistério da Igreja, verdadeiro templo de Deus construído de pedras vivas.

A Igreja reunida por Cristo escuta aqui a Palavra de Deus, reza como comunidade eleita, celebra os sacramentos e é alimentada pela Eucaristia. O altar-mor recebeu as relíquias dos mártires para tornar-se o sinal de Cristo, pedra angular da Igreja. Como dizia S. João Crisóstomo, «o altar tem isto de maravilhoso que, sendo pela sua própria natureza uma simples pedra, é santificado pelo facto que recebe o corpo de Cristo». A tradição cristã viu sempre no altar um símbolo de Cristo.

Construção e Dedicação da Catedral

A Dedicação da Catedral foi um acontecimento que veio completar todo um conjunto de aspirações dos cristãos da nossa diocese. A sua construção, embora concebida pelo Rei D. Manuel, que lhe chamou a «Igreja grande» e a projectou para ser a futura Catedral, foi o fruto dos trabalhos e sacrifícios dos cristãos, que viram nela a casa de Deus e do seu povo. A construção da Sé, começada em 1493, estava quase terminada em 1508, uma vez que foi benzida nesse ano pelo bispo D. João Lobo, mas só ficou verdadeiramente concluída no período que precedeu a sua Dedicação em 1517.

Nós sabemos que a construção do templo de pedra reflecte sempre o fervor interior da fé, o amor a Jesus Cristo, a esperança que dá a sua Páscoa, a aspiração à unidade que ultrapassa as fronteiras do tempo. Como já exortava S. Agostinho num dos seus sermões (336), «demos graças antes de tudo ao Senhor Nosso Deus. Os melhores dons, os presentes mais admiráveis vêm d'Ele. [...] Para que fosse construída esta casa de oração, Ele iluminou as almas dos fiéis, despertou o seu ardor, concedeu-lhes a Sua ajuda. Aos que ainda não estavam decididos, inspirou a decisão; apoiou os esforços da boa vontade para levá-los a seu termo [...] Foi Ele que começou tudo isto e é Ele que o realizará».

Templo de pedras vivas

A presença de Deus no seu templo é, para o profeta Ezequiel, simbolizada na fonte de água que jorra a partir dos seus átrios, sai pelas suas portas e se expande por toda a terra. A água é o elemento de vida essencial para a natureza e a humanidade. Em terras onde a falta de água é frequente, a visão de Ezequiel é o anúncio duma nova criação, uma fonte de esperança, o começo da salvação e a plenitude da Aliança, que há-de atingir e transformar tudo quanto existe. As águas que vêm do santuário dão novo alento a todas as coisas, porque a sua fonte permanente é o próprio Deus, que nele habita e nele reúne e sacia os que chama à fidelidade à sua Palavra.

Do santuário sai a vitalidade que alegra e dá vigor ao povo de Deus. Para nós, é a fonte do batismo que constrói a Igreja e nos leva a ser servos da água viva, que corre do lado do Senhor, aberto na cruz. A água do batismo irriga a cidade de Deus e permanecerá até à consumação do mundo, quando toda a criação for transformada graças ao mistério pascal. É esta água que sacia a nossa sede de Deus e nos faz mensageiros da humanidade nova em Cristo. É esta água que vence os desertos do mundo e nos traz a esperança e a paz de Cristo.

Somos chamados, como diz S. Pedro, a aproximar-nos do Senhor «pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus». O dinamismo das águas, que correm do templo, é aqui complementado pela solidez do enraizamento em Cristo, que faz de nós pedras vivas do seu templo espiritual, a Igreja.

S. Bernardo de Claraval, num dos seus sermões sobre a Dedicação de uma Igreja, diz que esta festa é a nossa própria festa, porque é a festa das nossas próprias pessoas, enquanto consagradas a Deus e pedras vivas da Igreja: «Sois vós que fostes dedicados a Deus - diz ele- sois vós que Ele escolheu». Também S. Paulo dizia aos Coríntios (3,9): «Nós somos a casa de Deus». Não podemos esquecer que a Igreja, que nos acolhe como filhos, na qual ouvimos Palavra de Deus e nos alimentamos do Corpo de Cristo, nos chama constantemente a mostrar, com o nosso testemunho de vida, a esperança que dela recebemos.

Em Cesareia de Filipe, sabendo que estava próxima a sua paixão, Jesus questiona os seus discípulos sobre o Filho do Homem e depois coloca-lhes directamente a pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?». Pedro professa a fé no Messias, filho de Deus vivo, e recebe de Jesus a missão de ser a Pedra sobre a qual Ele mesmo construirá a sua Igreja. A Pedro, Ele dá pessoalmente o encargo de velar pela unidade e pela missão da Igreja: ser sinal da reconciliação e do perdão de Deus, conseguidos na Páscoa, para toda a humanidade. A profissão de fé é aqui fonte da nossa missão.

A Igreja una, mistério de comunhão

Antes da sua paixão, Jesus pediu ao Pai pela unidade dos seus discípulos, pela unidade da Igreja: «Pai santo, guarda em Teu nome aqueles que me deste, para que sejam um como Nós» (Jo 17, 11). A unidade, como a comunhão que é a sua plenitude, é primeiro e sempre a obra de Deus em nós. De outra forma, cederíamos à tentação de construir por nós mesmos uma outra torre de Babel.

É significativo que a oração de Jesus pela unidade da Igreja ocorra logo antes da sua paixão. Isso significa que a unidade, como a comunhão, têm sempre uma marca pascal. A comunhão é feita de renúncia a si mesmo e de cruz, aceitação da vontade de Deus na vida pessoal e comunitária, disponibilidade para deixar que Ele construa em nós a sua Igreja, apesar dos nossos limites evidentes.

O autor da unidade e da comunhão é o Espírito Santo. Quando nos abrimos com verdade aos seus dons, quando deixamos que Ele modele a nossa humanidade, então quebram-se as barreiras de outrora, derrubam-se os muros do egoísmo e do individualismo, abatem-se os bastiões da indiferença e do orgulho.

Para S. Paulo, os frutos do Espírito são sinais de que está a ser construído o templo da comunhão: o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio de si mesmo (Gal.5,22). Os cristãos nas suas comunidades são chamados a acolher os dons do Espírito, de forma a abrirem-se sem preconceito nem parcialidade à comunhão da Igreja diocesana, que é sempre apostólica na sua origem e requer o discernimento do ministério apostólico exercido pelo bispo diocesano.

Igreja missionária

O Batismo é a fonte da missão dos cristãos. O que os nossos antepassados, há quinhentos anos, sentiram e viveram como sua missão, manifestando-a com a construção da nossa Catedral, nós somos chamados hoje a assumir diante dos desafios que são colocados à Igreja. O Evangelho de Jesus é sempre actual e, como S. Paulo, também cada um de nós pode dizer: «Ai de mim se não evangelizar».

Levar o Evangelho aos outros, transmitir o que recebemos, tal é a expressão concreta do dom da vida. Isso requer humildade para deixar-se converter por Cristo, amor à Igreja, generosidade e determinação. A missão da Igreja é assinalada quando Jesus envia os seus Apóstolos. O objecto do anúncio é o Reino de Deus presente e actuante na pessoa de Jesus. A Igreja é apostólica no seu fundamento e essa é a condição permanente da fidelidade à sua missão.

A ligação profunda à fé dos Apóstolos, através da sucessão apostólica e do ministério confiado a Pedro e aos seus sucessores, dá à Igreja a firmeza e a fidelidade necessárias para continuar a transmitir o que recebeu do Senhor. O Evangelho deve entrar nas fibras mais profundas da nossa humanidade e exprimir-se de forma nova nas aspirações, alegrias e preocupações de cada tempo. Não é apenas um acrescento ou um suplemento que se adiciona do exterior. Pela sua Encarnação, Jesus Cristo é o Homem novo, que nos revela que somos chamados a ser verdadeiramente humanos, precisamente na comunhão com Deus.

A Igreja quer ser o rosto de Cristo, bom samaritano, nas suas obras sociais. Tudo o que é humano, é sempre alvo da preocupação da Igreja. Ela é educadora da juventude e defende e promove a família. Interpela a consciência de cada pessoa, tendo em vista uma humanidade mais verdadeira. Considera a vida humana inestimável no seu princípio e no seu fim; promove a dignidade humana, olha preferencialmente para os mais pequenos, os que sofrem em suas casas e nos hospitais, os idosos, os abandonados, os pobres, os que não têm lar. Ela chama a uma correta defesa e utilização dos recursos naturais, num tempo em que a exploração da natureza pelo homem compromete os ciclos naturais e a própria vida humana.

A nova evangelização é necessária na nossa sociedade. Essa é a nossa responsabilidade na Igreja diocesana, responsabilidade de pais e mães de família, membros de comunidades cristãs, consagrados, pastores. Por isso, a formação e o aprofundamento da fé dos cristãos importa muito para a missão da Igreja. Este há-de ser um trabalho constante que precisa de disponibilidade, interesse e alegria para transmitir o que recebemos, o dom da fé. É, uma vez mais, a verdade do nosso encontro com Jesus Cristo que mede a vitalidade do nosso testemunho, do nosso anúncio.

Olhando a nossa história e querendo prosseguir por caminhos novos, como resposta às necessidades do presente e em projeto de futuro, havemos de nos abrir às exigências da santidade, da unidade e do espírito missionário. Que Deus nos conceda a graça de sermos bons continuadores da missão assumida e realizada, ao longo dos 500 anos da Diocese, e dos dinamismos espirituais e apostólicos, que fluíram desta nossa Catedral, como testemunhos de caridade fraterna e serviço à sociedade. E guiados pelo lema deste ano pastoral 2017-2018, apontemos para uma "Igreja jovem com os jovens".

A Igreja aprende com Maria a ser Mãe

Pela sua resposta ao Anúncio do anjo, Maria acolheu o dom de Deus e tornou-se mãe de Jesus, Filho de Deus feito homem. O «faça-se» de Maria à vontade de Deus constitui para nós a meta da vida cristã na Igreja. Esta disponibilidade manifestou-se nas Bodas de Caná e na dor da mãe diante do filho crucificado, isto é, em todos os momentos da sua vida.

Maria é a primeira discípula do seu filho, aquela que traz inscrita a imagem de Deus no seu coração, a Nova Eva que, pela sua fidelidade à Palavra, nos convida e nos ensina a aceitar que Jesus Cristo nasça em nós e nos marque com a sua novidade. A tradição cristã afirma que, assim como Maria é a mãe de Cristo, também a Igreja e cada crente, na Igreja, é chamado a ser como «mãe» de Cristo.

Esta maternidade, que se exerce na Igreja no anúncio da Palavra e na celebração dos sacramentos, acontece também nas outras formas de oração - contemplação e na acção, na prática das obras de misericórdia, no testemunho da caridade. Maria - Mãe ensina a Igreja a ser mãe, a comungar na Páscoa de Jesus.

Nossa Senhora da Assunção é a padroeira da Catedral. No centro do retábulo da capela-mor da Sé, ela aponta-nos a meta e indica-nos o caminho da Igreja: ser para o mundo o rosto de Cristo. Tal é a permanente e sempre atual maternidade da Igreja!

Funchal, 18 de outubro de 2017

†António Carrilho, Bispo do Funchal