Homilia na Imaculada Conceição

08-12-2017

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal

Sé do Funchal, 8 de Dezembro de 2017

"Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo" (Lc 1,28)

Na solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a Igreja celebra e dá graças a Deus pelo privilégio da Imaculada Virgem Maria, concebida sem pecado original. Cheia de graça e de beleza, com a obediência do seu "Sim" incondicional, abriu-nos o caminho da salvação. Por isso cantamos: "Toda sois formosa ó Maria! Vós sois a alegria do nosso povo!

Com Maria acolhemos, com um coração pobre, aberto e disponível, o dom do Verbo de Deus que vem ao encontro da humanidade para viver entre nós.Como filhos de Deus e de Maria Imaculada, também nós nos associamos ao louvor do Salmo 97, dizendo jubilosamente: "Cantai ao Senhor um cântico novo, pelas maravilhas que Ele operou".

Imaculada Conceição, Rainha de Portugal

Hoje, a Igreja portuguesa exulta de profunda alegria. Na verdade, antes da promulgação do dogma da Imaculada Conceição pelo Papa Pio IX, em 1854, com a bula Ineffabilis Deus, a devoção mariana configurou a cultura, a tradição religiosa, a alma e a identidade do povo luso. Desde a fundação da nossa nacionalidade, o povo português dedicou uma grande e sentida devoção à Imaculada Conceição. Em Portugal, Maria é celebrada como rainha e padroeira, desde o reinado de D. João IV, no séc. XVII. Foi em 25 de Março de 1646, há cerca de 400 anos, que o Rei português, em Vila Viçosa, deixou de usar a sua coroa e foi colocá-la aos pés de Nossa Senhora, consagrando a nossa pátria à poderosa intercessão de Maria Imaculada. Por isso, cantamos: "Salve, nobre Padroeira".

Um projeto de felicidade

A simbologia do texto do Génesis narra-nos as consequências graves do mistério do pecado do primeiro casal humano. Ferido pelo mal, disse "não" ao eterno amor de Deus Criador. Um projeto de felicidade divina desfeito pelo desamor e desobediência. "Porque fizeste isso?"(Gn 3,13). E o nosso Deus, em Adão e Eva, vai ao encontro do homem e da mulher, oferecendo-lhe a sua misericórdia, na promessa da redenção. Aproxima-se da fragilidade humana para a redimir. À confissão da desobediência: "Ouvi o rumor dos teus passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me" (Gn 3,9), a resposta do amor do Pai não se fez esperar com a promessa da Mulher, que esmagará a cabeça da serpente, símbolo do espírito do mal. Nesta Mulher, a Igreja contempla Maria, a primeira redimida como mãe do Salvador, Jesus Cristo.

Na plenitude dos tempos

Na carta aos Efésios (2ª leitura), S. Paulo expressa num hino de louvor, de admirável beleza trinitária, a imensidão e profundidade do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, ao chegar à plenitude dos tempos, com o mistério Pascal do Filho, Deus constituiu-nos "herdeiros para sermos um hino de louvor da sua glória", convidando-nos a sermos "santos e irrepreensíveis, em caridade na Sua presença" (Ef 1,4.12).

Cristo morto e ressuscitado, pela sua ação redentora, devolveu ao homem e à mulher a sua dignidade original de filhos de Deus. A felicidade suprema, reatada no tempo da Nova Aliança, com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo" (Ef 1,3), é a resposta de plenitude e a finalidade da criação do homem e da mulher: a sua felicidade e a glória de Deus. A santidade de Maria - Mãe, a "cheia de graça", é para nós também convite à vida em santidade, como caminho de felicidade para cada um de nós.

O Espírito Santo Criador

Num quadro, cheio de luz, simplicidade e beleza, S. Lucas, o evangelista da infância de Jesus, narra-nos o admirável evento da Anunciação do Anjo. Longe das instituições religiosas de Israel, a salvação de Deus surge num lugar humilde, na pobre aldeia de Nazaré. A promessa e a esperança do Messias concretizam-se em Maria, uma jovem humilde, obediente e disponível. O grande protagonista é o Espírito Santo, que já estava presente na criação do mundo e, neste momento, torna-se também o autor da nova criação: "O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus"(Lc 1, 35). "A encarnação do Verbo de Deus numa família humana, em Nazaré, comove com a sua novidade a história do mundo" (Papa Francisco, exortação Amoris laetitia,65).

Com o seu "Sim" generoso e amoroso, Maria abriu as portas do céu, isto é, a porta da felicidade eterna ao género humano. O altíssimo mistério da Encarnação do Verbo é a revelação do imenso amor de Deus pela Humanidade.

Deus faz-se próximo, na família

A liturgia coloca diante de nós, no livro do Génesis, o primeiro casal humano ferido pelo pecado. Também, hoje, numa sociedade, com uma acentuada crise de valores, tantas vezes marcada pelo sofrimento, violência e solidão, Deus entra no jardim do nosso mundo e da nossa história pessoal, e faz-nos a mesma pergunta: "Onde estás?" (Gn 3,9).

A iniciativa do encontro com a Humanidade deve-se sempre a Deus. O Senhor sabe que precisamos de regressar ao amor do Seu Coração, de viver segundo os seus ensinamentos, como valores de vida e felicidade. Deus faz-se proximidade, em seu Filho Jesus Cristo, para fazer comunhão e unidade, e deixou-nos a sagrada Eucaristia, como alimento e caminho para a vivência do amor-caridade, da solidariedade e fraternidade, de atenção e sensibilidade "à solidão e às lágrimas dos irmãos" (Papa Francisco).

Face aos graves desafios do mundo atual contra a família humana, a Igreja não deixa de proclamar a sua altíssima dignidade. A família é a célula fundamental da sociedade e da Igreja, o santuário da vida, ela mesma é Evangelho vivo. A Igreja convida a família a "compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito" (Amoris laetitia,29).

Senhora da alegria e da espera

A solenidade da Imaculada Conceição ilumina a nossa caminhada de Advento. A Igreja percorre este tempo litúrgico, com a Senhora da alegria e da espera, que aguardou com inefável amor a vinda de Jesus.

Advento é o tempo de vigilante oração, de silêncio e da escuta da Palavra, de mudança de comportamentos, alimentada com uma vida sacramental autêntica. S. Basílio Magno, um monge do séc. IV, recorda-nos que "o cristão é aquele que está vigilante, em cada dia e a cada hora, sabendo que o Senhor vem". O Advento já é anúncio de Natal, da alegria da Festa que está próxima!

Tempo de renúncia e partilha

À semelhança dos anos anteriores e de acordo com a recente proposta do Conselho Presbiteral da Diocese, a renúncia do Advento será destinada, também neste ano, ao Fundo Social Diocesano, tendo em atenção as múltiplas necessidades e solicitações sentidas entre nós. Partilhemos, pois, com generosidade e amor solidário, a nossa ajuda para com os mais carenciados. Como é habitual, a recolha destas ofertas será feita nas Missas dos dias 6 e 7 de Janeiro, Festa da Epifania do Senhor. Tudo o que oferecemos com amor e alegria transforma-se para nós, em verdadeira bênção e fonte de graças. Bem sabemos que a quadra do Natal tem sempre a marca da fraternidade cristã, que se traduz em gestos concretos de presença e ajuda a quem mais precisa.

Neste tempo de espera e de caminho para o Natal do Senhor, tecido de luz e de sombras, sejamos anúncio luminoso do Amor insondável do nosso Deus. E que a Imaculada Conceição, a Virgem cheia de Graça, Senhora do silêncio e da escuta da Palavra, do "Sim" e ajuda generosa aos outros, interceda por nós junto de Deus, nos abençoe e nos envolva na Sua Luz.

Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, Senhora do Advento e da Espera, dai-nos o vosso Filho Jesus.

Funchal, 8 de Dezembro de 2017

†António Carrilho, Bispo do Funchal