Comentário às leituras do 2º Domingo do Advento

06-12-2017

Comentário à Liturgia da Palavra do 2ºDomingo do Advento

1ª Leitura:

Diz o profeta Isaías: "Consolai, consolai o meu Povo, diz o vosso Deus". É esta uma das palavras fortes do Tempo de preparação para o Natal - o Advento - no qual o próprio Deus vem num dinamismo de encontro connosco. Deus não é um Deus no meio das nuvens, mas um Deus que nos visita, que se avizinha da humanidade para mostrar um caminho de vida, de alegria, de felicidade. É isso o que quer dizer a palavra "consolação", isto é, "com aquele que está só" (em latim consolitudine). Deus vem habitar a nossa solidão, vem fazer-nos companhia na caminhada pela vida. É daqui que nasce a fraternidade. Amados por Deus, visitados por Ele, não podemos encerrar-nos em nós, mas devemos transportar essa visita, a visita de Deus, em gestos, em palavras, em testemunho que toca a vida dos outros e transforma o mundo, depois de nos transformar por dentro.

"Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus".

O Tempo do Advento é um tempo de preparação para a vinda do Senhor. Deus veio, vem e virá. O nosso Deus é um Deus que vem. O Tempo do Advento será, assim, uma oportunidade para reconhecer a visita do Senhor. Como tal, o Advento é um tempo de conversão, de esperança, de vigilância, de fazer um presépio no coração para ver nele nascer Jesus. E, quando assim acontece, quando deixamos Deus-Menino nascer em nós, convertermo-nos, fabricamos em nós, pela graça, atitudes próprias daqueles que acreditam e seguem Jesus.

"Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas".

Estas frases do Profeta Isaías tocam tão forte os nossos corações que nos fazem entrar no dinamismo de mudança de atitudes, de conversão. "Altear os vales", quer dizer que não basta deixar de fazer o mal, mas temos de fazer o bem, potenciar o que em nós é bom. Trazer para fora do nosso peito o que há de bons sentimentos e de qualidades. Não podemos guardar ou esconder as coisas boas do nosso coração, os dons e talentos que Deus nos concedeu. Trata-se não apenas de testemunhar o que de bom há no coração do homem, mas também de aprofundar o valor da vida e abandonar a superficialidade. O Papa Bento XVI dizia que "sem Deus tudo perde a sua consistência. Se Deus falta, falta também a esperança".

"Abater os montes e as colinas...endireitar caminhos tortuosos... aplanar veredas escarpadas" como quem diz que há sempre em nós arestas a limar. Imperfeições a corrigir. Comportamentos a alterar. O Tempo do Advento, com a emoção da vinda do Senhor, com a esperança a crescer no coração pode ser um tempo propício para abandonar o mal que nos faz infelizes e aderir ao bem, de todo o coração.

2ª Leitura:

"Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se".

Esta afirmação pertence à segunda leitura, de São Pedro. São palavras que por um lado mostram que há Natal todos os anos, porque Deus usa de paciência para connosco. O Advento é uma oportunidade de Deus voltar a bater à porta do nosso coração. Vem como peregrino humilde em busca de hospitalidade. Vem mostrar o seu verdadeiro rosto para que todos O possam acolher. Penso que se alguém rejeita Deus é porque, na verdade, ainda não conheceu o Seu verdadeiro rosto. Ele vem, aproxima-se de nós, vem no rosto do Deus-Menino. Quem é que tem medo de um bebé? Não se impõe. Propõem-se. Quer cativar a nossa liberdade (Cf. Bento XVI). Quer atrair-nos a Si. Infelizmente, para muitos foi mais um nascimento de um bebé pobre. Mas, para os que estiveram atentos, uma luz brilhou nas trevas da humanidade. É essa exatamente o significado da segunda expressão do texto paulino, aqui realçada:

"Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão... Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz".

São palavras que nos interpelam. Usa uma linguagem apocaliptica. Não podemos perder ou desperdiçar o tempo, nem nos dispersar em superficialidades. Não podemos pensar que a realidade que vivemos e sentimos é a única realidade ou toda a realidade. Se trabalhamos tanto para conseguir as nossas metas e objetivos, porquê não havemos de trabalhar e empenhar-nos, com o mesmo afinco e determinação, para viver, já, aqui e agora, a eternidade? Advento é tempo não apenas de recordar o nascimento em Belém, há dois mil anos; não apenas de acolher Deus que vem no hoje das nossas vidas; é também tempo de preparar e acolher a eternidade que vem. Sem medo e sem angústias, mas a trabalhar com determinação pelo bem e pela paz, pelo diálogo e pela concórdia. É assim que esperamos o Senhor. E não como quem espera sentado numa sala de espera a olhar para o telemóvel ou para uma revista.

Evangelho:

"Uma voz brada no deserto: preparai o caminho do Senhor".

O texto do Evangelho está em concordância com a primeira leitura do profeta Isaías e aponta, também, na direção do Advento como um tempo de conversão e de mudança de vida. Surge a figura de São João Baptista, austero, centrado e a apontar o caminho que vai para além de si mesmo. Ele vive a mensagem de uma forma total e profunda. Um testemunho de vida em consonância com o que afirma no meio do deserto. Ele sabe que não é o Salvador. Ele é simplesmente um instrumento que aponta para Jesus. De certa forma, cada cristão deve ser um caminho para Jesus. Devemos saber que nós não somos os salvadores. Somos simples instrumentos nas mãos de Deus. Possamos, neste mundo, viver um cristianismo não apenas a pensar em nós, mas também a apontar caminhos novos para que a humanidade se encontre com Deus.

Para meditar e rezar:

Tu és testemunha do Evangelho? Anuncias Jesus como João com todo o teu coração e com determinação? Apontas e abres caminho para Jesus? Através de ti, outros se encontram com Jesus?

Padre Marcos Gonçalves